sexta-feira, 14 de dezembro de 2012

Camafeu

E aqui estou eu, perdendo a noite mais uma vez. Ou ganhando - depende do ponto de vista.
Preciso escrever um texto sobre ela. 
Hoje não falo de platonismo, romantismo, neurose. Não me perco em devaneios ou desvarios. Ou então é justamente sobre tudo isso, sabe-se lá! 
Hoje, eu penso no que eu posso dizer sobre ela, simplesmente aquela grande e enorme rocha, cujo interior é feito de tanta carne quanto eu. 
Juro, eu tenho tanto a dizer... mas, não sei por onde e nem como começar.
Digamos, então, que eu me dirija diretamente a ela, certo? 
Vamos lá, um esboço do que preciso desenvolver para o dia que se aproxima.

"Você é a cara da coragem. Da força, da perseverança, da luta, da guerra, da vitória. 
É o suor do rosto, é a lágrima no olho, é o sorriso. É aquela que levanta cedo pra trabalhar, mesmo que o trabalho seja ingrato. É a que aceita o que vem de bom grado, se isso fizer-te mais forte. É a cara da esperança. Você é aquela criança de cara fechada, meio emburrada, que só tinha um vestido bonito para usar aos domingos. É aquela que aparece nas fotografias surradas pelo tempo, com aquele jeito cheio de marra que eu conheço desde sempre.
Você é aquela que apanhou da mãe, que apanhou da vida. É aquela que conheceu o pai tarde, mas nunca realmente o teve. É aquela que conhece a dor da fome e da alma. É aquela menina imaculada e internada atrás de muros que se diziam de fé. 
Você é aquela que, eu sei, sentia-se esquecida. Que não sabia o que esperar, quando não se podia esperar mais nada. É aquela que sonhava com uma boneca bonita ou que lhe deixassem as luzes acesas durante a noite.
Você é aquela mocinha desesperada para viver. Aquela que fugia da escola, que fugia de quem era, que fugia de si mesma e de quem a lembrasse disso. 
Você é aquela que se apaixonou cedo. Que amou a figura da segurança, da proteção, do amparo há tanto tempo almejado e, ao mesmo tempo, desconhecido. Dizer-te que foi correto, não posso. Mas eu compreendo e, sinceramente, eu admiro também. Porque você teve coragem de ser quem você queria ser, de estar onde queria estar, de fazer o que queria fazer. Você riu na cara da conveniência, desafiou a retidão, teve peito o suficiente para se jogar no seu desejo. Você pagou caro por isso, eu sei. Mas eu realmente admiro sua audácia de viver o que quis viver, e pouco importa o resto. 
Você é aquela que optou pela dificuldade de uma vida fora dos padrões. Aquela que ergueu-se do chão, da miséria, da dor de alma, da incredulidade. E então eu te admiro ainda mais.
Você é a neta amada. É o orgulho e o coração do que hoje é saudade. É aquela que apegou-se de toda alma ao ser que tanto te amou e, eu sei, te espera de braços abertos, quentinhos e ansiosos por sua menina.
Você é aquela que tem o peito de ferro. Que, da mesma forma que soube abraçar o amor, soube deixar-lo quando percebeu que não era o que precisava. E, mais uma vez, lá está a minha imensa admiração.
Você é aquela que caminhou pela estrada sinuosa, de sol a sol, em uma casa que não era bem um lar. Soube ser o braço forte e, quiçá, até o brado retumbante. Você teve coragem de arriscar e de suportar, por um ideal maior que você mesma. E você conseguiu. Bem, eu estou aqui, então...
Você é o esteio e a base. É o orgulho, é o exemplo, é o porto-seguro. É a capacidade de amar acima de tudo. Você é o colo, o abraço cansado e firme, o chinelo no almoço, o cheiro de proteção. Você é o dia de serviço, o banho corrido, a comida no prato. Você é o rosto da minha multidão. É a cinta de correção e o carro na esquina. É o par de olhos atentos e as palavras duras.
É meu maior foco de confiança. É meu escudo e a minha arma. É o meu maior medo de perder.
Você é a mulher mais incrível que eu conheço, e eu nem me importo com outras, pois eu sei que não são mais do que você. Eu queria ter metade da sua coragem, coragem de ser quem é, quem sempre foi. Queria ter mais de você, bem mais.
Eu não queria que você fosse eterna, só queria que ficasse eternamente ao meu lado. Que me esperasse e que partíssemos juntas, muito velhinhas. Eu juro, não é por egoísmo. É amor demais, mesmo. É a dependência emocional gigantesca que me toma. Desculpe-me por isso. É só que eu não sei, de verdade, viver sem você. 
Você é minha mãe, e eu não posso, nem de longe, imaginar alguém que te ame mais do que eu". 

Bom... é mais ou menos isso aí.

segunda-feira, 10 de dezembro de 2012

Realidade mitológica

Grécia. Eles sempre quiseram essa viagem, apesar de toda crise.
E, mesmo tendo imaginado por tanto tempo e visto milhares de fotos e vídeos na internet, não era nada parecido com o que tinham diante dos olhos.
Estavam todos deitados no chão e, apesar do sol, fazia muito frio. Ainda assim, havia uma piscina enorme e queriam nadar. Ao menos era o que Sofia pensava querer, enquanto olhava, do alto daquele penhasco, o cenário paradisíaco que se estendia. Árvores abstratas, cores que não existem nem no arco-íris projetavam-se no infinito meio verde, meio azul, até onde sua visão alcançava. Parecia mais estar dentro de um de seus sonhos, quando visitava Alice em seu país maravilhoso.
Entretanto, mesmo com a beleza se desenrolando adiante, ela queria mais. Ué, aquele não era um lugar cheio de história, mitos e lendas? Quando teria outra chance de estar ali, sem aviões, sem euros, sem crises, sem realidade? Então. Tinha sede de explorar. 
Todos os companheiros simplesmente desaparecem na próxima cena de que se lembra. E lá está Sofia, em seu vestido justo, com uma lata de cerveja nas mãos. Ok, pode lidar com isso. Não era lá uma Grécia, mas também não é tão ruim assim. Mais uma vez, jogada de um oposto a outro, sem a menor decência de uma explicação plausível. Mas precisava fazer sentido? Não. Só precisava aproveitar.
Ela permite seu corpo mover-se na música. Um pouco mais, entrando no ritmo. A garota totalmente artística ao seu lado lhe faz companhia. Ela sempre faz. Ela sempre sabe. Conversam amenidades e se deixam sorrir sem razão aparente. Sofia é livre por alguns momentos.
Mas então, a merda do seu inconsciente trabalha mais depressa do que seu desejo de liberdade. E quando vira seu rosto, encontra a última coisa que gostaria de ver, a única coisa que gostaria de ver. Como se materializado de seus pesadelos mais profanos e desesperadores, envolto em névoa e orvalho, ele está lá. O barqueiro, seu Caronte.
O mundo revira a sua volta. Sofia fica grata por ser mundo de fumaça e neblina, senão teria caído. Um misto de raiva e euforia toma conta de si. Queria expulsá-lo. Queria correr ao seu encontro. Mas não precisava. Só a ideia de sua presença ali já era mais do que suficiente. Ela já estava em seu lugar de sempre, sentada no pedaço inerte de madeira podre, já marcado de seu quadril, no barco de Caronte. De volta ao submundo. Talvez, por isso, a Grécia deu início ao seu infortúnio. Para o que não fazia sentido, já estava entendendo demais.
Uma fração de segundos e estava ao seu lado. Claro, ele também não estava sozinho. Cerberus, cão fiel, o acompanhava. Somente com tantas cabeças ele poderia ter tantos olhos e tantos sentidos quanto tinha. Novamente, lá estava a razão de tudo. 
Sofia pretendia fingir que não o vira. Que não o notava. Que não respirava o mesmo ar que ele. Coisa essa que ele mesmo não fazia, mas de que importava? Ele lhe dirige palavras desconexas, inapropriadas. Palavras com um significado que, nem de longe, significavam o que queria dizer. Alguma coisa sobre a cerveja, algo entre latas e garrafas. Caronte até usara uma de suas pseudo-autorias típicas. Sim, ele tinha a irritante mania de inventar vocábulos idiotas, mas lhes conferiam autenticidade. Mas que eram idiotas, eram.
Ela tenta desvencilhar-se daquele papo besta, mas está se deliciando com a neblina que ele carrega. Ele se aproxima dela, e ela se torna mais fria do que o gelo polar. Por um momento, ambos tornam-se brumas. Ela parece estar sentada, e ele se inclina. Com uma das mãos, ela aperta a lata, agora fervendo em seus dedos congelados, até que o alumínio corta-lhe os dedos. O sangue escorre e ela gosta da dor. Essa dor distrai a outra, a que sente na outra mão, mas que lhe fere a alma: Caronte toca seus dedos com os lábios. E ela, incapaz de negar-se ao toque, de negar-lhe o toque, de tornar-se o toque. Incapaz. Ele sussurra seus versos dolorosos e conhecidos em sua mão, e eis que ela toma vida própria. Já não é mais ele que lhe toca. Ela passa o dedo por aqueles lábios feridos e ferinos e a saliva mistura-se ao gelo. Versos, saliva e frio. Ela se aproxima, lentamente, como puxada por um imã... sente o cheiro, reconhece o território tão seu e... e... e nem nas brumas ela é livre para ser.
Abre os olhos e está no barco, no meio do Aqueronte.
De volta ao submundo, sem barqueiro que lhe faça a travessia.

sexta-feira, 7 de dezembro de 2012

Conto: Trapo e Vidro - Cap. I



Era uma vez uma boneca de pano. Costurada por hábeis e gentis mãos, repletas de rugas e marcas da vida. A mulher que a fez não gostava de falar a respeito de si, não tinha amigos, não tinha parentes. Era uma mulher quieta, introspectiva. Carregava no olhar o peso da solidão, talvez de alguma dor sem cura. Mas era doce, procurava falar pouco, porém com respeito.
Manuela era seu único orgulho. Tinha o sonho de ter uma filha desde sua infância, quando as bonecas que via estavam sempre atrás de vidros grossos, escondidas nas prateleiras das vitrines. Nunca pudera ter uma. As condições em que vivia, ela e seu pai, não lhes permitia o luxo de ter brinquedos. Por isso, e talvez só por isso, tenha nascido Manuela. O destino não lhe dera bonecas. Também não lhe dera filha ou filho.
Aquela mulher nem era costureira. Tampouco era artesã. Mas por alguma razão que desconhecia, passara anos juntando pedaços de pano. Trapos. Não sabia o que faria com eles, mas tinha necessidade, quase uma sede, de guardá-los. Achava-os lindos. Macios. As vezes, gostava de pegar os mais coloridos e olhar bem de perto, contra a luz, só para ver os finíssimos fios entrelaçados, tão próximos, tão unidos. Juntava seus pequenos restos de tecido e, ao final de cada mês, contava quantos recortes havia conseguido e os alinhava. Colocava-os todos dentro de uma caixa empoeirada ao lado de sua cama. Foi assim por 9 anos.
Um dia, resolveu que já havia juntando demais. Era quase maldade deixar ali, aqueles retalhos todos, esquecidos e amontoados numa caixa, em um canto qualquer de um quartinho meio mofado. Saiu de casa disposta a dar-lhes um rumo. Entrou no minúsculo armazém de uma única porta estreita que havia em sua rua vermelha. Com os poucos trocados que tinha, comprou dois carretéis de linha preta, três agulhas de diferentes tamanhos e voltou pro seu buraco.
Entrou pela porta surrada como se fugisse de balas de canhão. Fechou-a atrás de si e deixou-se encostar por alguns instantes, estava eufórica. Mas não sabia o motivo. Uma excitação sem nome tomou conta de seus sentidos, sorriu sem ver, agarrada ao saco pardo com seus poucos e novos pertences. Encarou a caixa e foi em sua direção. O objeto parecia se mover, parecia pular. Parecia que estava pedindo, suplicando por algo. Ela sentou-se aos pés da cama, no chão, puxou a caixa para perto de si e abriu.
Manuseou cada pedaço de pano, separou algumas cores que achou interessante, algumas texturas variadas. Puxou o saquinho, sacou uma agulha e mediu a linha. Não sabia o que estava fazendo, nem sequer sabia costurar, por Deus! O que faria com aquilo? Porém, não podia ser tão difícil. Tinha que tentar, suas mãos estavam tão quentes que poderia facilmente queimar o tecido. Com os dentes, cortou um pedaço comprido da linha e experimentou na agulha. Depois de duas tentativas, conseguiu alinhavar. Sentiu-se poderosa! A miopia ainda não lhe vencera por completo.
Com as mãos tremulas, segurou firme um pedaço de retalho. Um quadrado lilás, manchado em um dos cantos com um pouco de tinta azul. Da forma como fora manchado, ela tinha a nítida impressão de ver um formato naquele borrão. Talvez uma silhueta, uma árvore. Achou muito bonito, como um descuido, um erro, deu aquele pano simples lilás, sem graça, uma cara toda sua. Tentou firmar a mão e enfiou a agulha pela borda do pano. Deu uma volta, duas, três. Tudo bem, alguma coisa sairia dali. Só não sabia o que. Adorou como a linha preta deu destaque ao lilás e acalmou o borrão azul.
Mas era pouco. Resolveu contar com a sorte: enfiou a mão na caixa e puxou o primeiro tecido que tocou seus dedos. Um retângulo de flanela xadrez, azul e branco. Não combinava em nada com sua árvore azul no fundo lilás. Mas era o que o destino tinha lhe dado, então não trocaria. Colocou o segundo pedaço por baixo do primeiro e foi dando voltas na agulha. Não sabia qual caminho seguir, deixou que o acaso guiasse suas mãos pra onde a vontade lhe mandasse.
O dia tornou-se noite. Seus olhos ardiam e a escuridão não ajudava. Seu indicador já reclamava pelo quinto furo. Precisava de luz, um pouco mais. Arrastou-se para perto da janela e a luz da lua banhou-lhe os cabelos desgrenhados, molhados pelo suor do rosto. Seus olhos estavam embaçados demais, mas tinha que concluir aquilo. Acendeu um toco de vela, colado ao parapeito da janela. E continuou.
Quando os primeiros raios de sol tocaram seu rosto, ela deu a última volta na agulha. Terminou de passá-la no tecido e cortou com os dentes o que restou da linha. Esticou diante dos olhos o que havia feito: um vestido. Nada nele combinava: nem as cores, nem as texturas, nem as formas, nada. Parecia um desenho feito por alguém com quatro anos num dia qualquer da escola. E havia algo mais, algo vermelho. Seu sangue. Os furos no dedo deixaram ali o seu protesto. Agora parecia o desenho de uma criança de quatro anos, encontrado na beira da calçada de uma cidade em guerra, há pelo menos uns 10 anos.
Mas não importava. Era, de longe, a coisa mais bonita que já vira. Que já fizera. Era seu, inteiramente seu. Seus pedaços de pano, juntados por tanto tempo, guardados com cuidado, sonhos de alguma coisa que não sabia o que era. Era a sua linha e a sua agulha, compradas com seus trocados, trocados que conseguiu trabalhando três vezes por semana naquela lavanderia escura e quente, muito quente. Poucos centavos que não davam pra nada. Exceto que deram pra comprar linhas e agulhas. O suficiente pra muito mais do que pensou querer nessa vidinha sem graça.
Era todo seu. Claro, não caberia nem em si e nem em ninguém, nem mesmo na criança de quatro anos que poderia ter-lhe desenhado. Mas era tão importante e especial. Pendurou-lhe na cabeceira da cama, onde pudesse ver todo o tempo. Enfim, suada, suja, cansada e muito feliz, deitou-se na cama e adormeceu.

segunda-feira, 3 de dezembro de 2012

Sem noção do ridículo!

A tendência normal é a gente tentar parecer/ser o menos ridículo possível, certo? Ok. Mas e quando você não ta se importando nem um pouco com "ser normal"? Bom, aí você simplesmente decide publicar algo que deveria - creia-me, DEVERIA MESMO - tentar esconder, apagar, remover, deletar da sua vida. Ao menos se quiser ter um mínimo de dignidade ou de respeito alheio. Maaaaaaas, porque causa eu faria isso, né?

O cinema não poderia perder uma dessas, NEVER. Eu não sei se é a trilha sonora, se é o fato de ser "mudo", se é nosso amigo Odair-nunca-se-viu-mais-gordo, se é a aluna saltitante rodopiando, o "nível Fodão" ou o que mais. Sei que Curta Santos é para os fracos! O que pega mesmo é o Vídeo Sensações (percebe onde começa o ridículo?) dos aspirantes a jornalistas. E depois perguntam porque nosso diploma é caçado, porque não nos levam a sério, etc. Você passa da metade do caminho no curso, daí quando acha que o pior já ficou pra trás, surge uns camaradas e te enfiam essa na cara, goela abaixo! Mas, tudo bem. Valeu a pena. É ridículo, é engraçado, é desesperador. E nostálgico.

E sim, eu sou essa impressionante atriz/pianista/demente/olhosdepanda/assassina do vídeo.
Porra, Hollywood, filma eu!

A Partitura Final

quinta-feira, 29 de novembro de 2012

La Sombra, o meu clã


Eu quero começar de novo. Quero voltar ao ponto de partida. Quero retomar de onde parei.
Eu quero beber o que restou do meu copo. Quero dar a última tragada no meu cigarro, tão forte e tão profunda que atravesse o filtro e me queime os lábios. Eu quero me prender de novo. Quero ultrapassar os muros e me esconder atrás da porta. Quero abrir aquela janela, quero passar da sacada, quero me pendurar no alto.
Eu quero ouvir mais uma vez aquela música. Quero repeti-la até que meus tímpanos gritem em protesto e minha garganta arda de tanto entoar seus versos. Eu quero vestir a mesma roupa, calçar o mesmo sapato e pintar a boca da mesma cor.
Eu quero dar os mesmos passos e refazer o mesmo caminho. Eu quero agarrar a mesma corda e me enforcar nela. Quero que meus pulmões explodam em migalhas pela falta de ar. Quero a parede às minhas costas apertando minhas costelas. Quero a multidão de três me observando. Quero me apoiar em qualquer objeto maior do que eu para sustentar as pernas bambas. Quero estreitar os braços na mesma geometria afunilada. Quero esticar o pescoço para alcançar a perdição do impróprio.
Eu quero me sentir incapaz de negar. Quero pouco me importar com o depois. Quero brincar de ser quem pode fazer o que quer. Eu quero que me cortem a língua e que joguem meus princípios ladeira abaixo, pra onde eu jamais possa alcançar. Eu quero me perder na irracionalidade.
Eu quero estar impecável. Quero meu corpo em curvas de pista de concreto. Quero que meus pelos estejam delineados nos lugares certos. Quero a pele meio bronzeada de sol do meio dia no inverno. Quero meus cabelos espessos como um manto.
Eu quero esmigalhar os seus sentidos. Quero destruir suas barreiras, quero te afogar no próprio ódio. Quero vomitar minha leviandade em seus olhos. Quero que o suor cubra tua alma mais do que teu corpo. Quero arrancar suas palavras da base da língua antes que teu cérebro seja capaz de articular uma sílaba sequer. Quero me pendurar nos teus cabelos como se fosse o último pedaço de grama verde no meio do deserto.
Eu quero te ouvir gritar até secar as entranhas. Quero que rasteje profanamente, agarrando-se às minhas pernas lisas. Quero tocar teu rosto com a sutileza de um urso infernal. Quero te levar para as profundezas do sétimo inferno. Quero destruir teus sonhos, esmigalhar teus ideais. Quero que sangre por todos os poros.
Eu quero reduzir-te ao pó do qual vieste, só para soprar-te em meu decote. Só pra ver tuas partículas desfazerem-se na minha pele, ardendo como  sal e limão na ferida. E quero me permitir sentir a dor que me causarás.
E tudo isso, tudo o que eu quero, é porque eu posso - tanto quanto eu sempre pude. 

quarta-feira, 28 de novembro de 2012

Respeitável Público!

Cheia de manias e com pouca paciência até pra mim mesma. Essa sou eu. E vir com essa de "muito prazer" ao conhecer, puuuuuf. Me poupe. Já ouvi de tudo sobre mim, sobre quem eu sou, sobre quem eu deveria ser, sobre o que eu poderia não ser. Sobre quem eu era. Resumindo, acho que já ouvi bastante sobre mim, pela boca de muitos outros. Mas você sabe quem sou eu? Não sabe e não tem prazer em saber, me ajuda vai.
A menina que escreve bem desde novinha, que era boa em redação e amava ler. Aí ela decidiu fazer Direito, veja só! HA HA HA. Nada disso! Chato demais, gente demais, texto demais, lei demais. Lei pra alguém meio fora dela, bom, nada feito então. Aí ela decidiu ser Jornalista, um pouco tardiamente. Já tava meio velha pra isso, mas... vamos lá! Já que escrevia tãããããão bem e há taaaaanto tempo, e também amava ler (já mencionei isso?). Olha ela lá então!
Aí ela pegou o seu "dom divino" e estudou. Se formou e tal. E apesar de aprender a melhorar a sua já magnífica dádiva, ela se cansou e cansou uma pá de nêgo também. Ela escreveu pra blogs, pra jornaizinhos, pra radiozinhas, pra si mesminha. Mas também encheu. Aí ela largou os textos tipo cult, saca, profissa e tal, e vai lá mostrar o que já escreveu sobre... bom, sobre o seu cérebro danificado. Coisas novas, coisas velhas... mas coisas suas. Minhas. Sempre. E confesso: escrevo primeiro no Word, só depois posto por aqui. Por quê? Bom, porque a profissa se intimida em "rasgar o verbo". O meu verbo, no caso. Então fico sozinha na minha folha em branco, onde não há publicações, e ali sim eu falo o que tenho que falar. Depois, como um tiro certeiro no meio da cara, eu copio, colo e posto, sem precisar pensar. Sacomé? Aprende aí comigo, po.
Parece que eu tenho um popular "fogo no cú", entende? Aquilo de se meter onde não deve? De cutucar onde não pode? Pois então.
E assim, quem sabe, meus filminhos e livrinhos e materiazinhas de Jornalistazinha não ganhem um novo tom (mas não de cinza, ainda) e cause um vício. Tipo meu maldito vício de passar mil séculos engolindo e regurgitando a mesma porcaria. Merda de fanatismo perseguidor. Merda de cérebro com compartimentos extras pra guardar inutilidades. Enfim.

terça-feira, 27 de novembro de 2012

Tempestade


Ela levanta a cabeça e olha adiante. A frente, a estrada escura e fria se torna apavorante.
De tudo que havia, pouco restou. Ela volta dois passos. Pára e reflete.
Deita-se sobre o chão duro de concreto. Não está satisfeita. Uma árvore talvez fosse boa amiga, mas naquele instantes, só existiam apenas pedras.
Sabe que precisa continuar, mas a sua curiosidade é maior. Naquele instante, ela nem sem lembra mais do que causou essa sua repentina sede pelo passado. Só sabia que precisava recordar.
Encosta-se sobre a superfície dura e fita a noite. Sem lua e nenhuma estrela. Só a chuva gelada descia como um pano feito de milhares de adagas a cortarem sua carne cansada, suada, marcada pelas cicatrizes do tempo. Tempo esse que nunca fora seu grande aliado.
Deitada de costas, ela vira a cabeça para trás. Fecha seus olhos escuros. Lágrimas caem, rasgando sua face dolorida e incolor.
Dentro de sua mente, ela caminha. Abre de um enorme livro, não um qualquer, mas um que lhe é de fácil acesso quando aquela mania de querer saber aperta. Não sabe nem ao menos se ainda sabe ler. Mas descobre que sim, para sua decepção. O analfabetismo nesses momentos cairia muitíssimo bem.
O que procura, afinal? As velhas páginas, amarelas, rasgadas, quase totalmente pútridas do que antes ela lia com sagacidade. E lá está: a sua história. Ela fecha as pálpebras pesadas, na verdade já sabendo que tudo estaria ali. Mera e besta ilusão de acreditar que talvez tivessem sido destruídas.
Ela devora cada palavra. Imediatamente, uma mistura de ódio, nojo, desejo e satisfação se apoderam de sua alma sem que ela queira. Nem tudo do que havia ali estava totalmente correto, mas a forma como fora delineado era incrivelmente delicioso. Quase sente o gosto e a textura daquelas linhas.
Sem pensar duas vezes, ela joga fora aquele livro, aquele antro de perdições.
Mas era bom. E lhe parecia estranhamente plausível que lhe mantivessem ali.
Maldito destino, maldito seja o carma que nos leva à caminhos tortuosos e com acesso restrito.
Mas ela não se sente vencida, ainda. Aperta ainda mais os cílios molhados e outras cenas se desenham diante de si. Mais imagens do que o todo. Mas não são as que ela quer. Ela serve-se de um gole de café amargo e imaginário para segurar a ânsia que tem de dormir para sempre.
Já não encontra mais o que procurava. Mas lembra-se muito bem dos detalhes. E se lembrasse de si, lembraria do outro, que era praticamente igual a ela, naquele momento.
Os sorrisos e os olhares, o toque no cabelo e no rosto, as horas gastas num papo sem nexo.

Ela odiava tudo aquilo. Odiava com todas as suas forças. E odiava ainda mais a falta que sentia de tudo aquilo. Era-lhe nocivo como fogo em brasa no meio das pernas. Mas havia algo naquele corpo, naquela vida, naquele ser tão vil e sem caráter que a atraia mais do que ela acreditava.
Nesse instante, ela volta a si. Abre seus olhos escuros e endireita-se sobre a pedra. Seu corpo já estava todo coberto de lama. Ela esfrega as mãos na terra ardida enquanto suas lágrimas se misturam com a chuva deixando um gosto peculiar na boca.
Nem mesmo o cigarro amigo lhe fazia companhia mais. Dissolvera-se na tempestade de suas emoções.
Ela levanta. Apóia-se confiante e relutante por sobre as pernas que lhe haviam levado até ali. E por tantos outros caminhos que lhe eram vivos na memória.
Joga seus cabelos para trás num gesto bruto, como se querendo convencer a si mesma de sua coragem e capacidade.
Se era mesmo forte, não sabia mais.
Lutava com todas as suas armas para que um dia o véu que lhe cobria o rosto fosse dilacerado em todo seu esplendor. Sabia que esse dia chegaria.
E não tinha piedade de ninguém. Quando aquele dia chegasse, sabia o que queria e o que faria, certamente. Riria na cara de todos os seus desafetos. "Eu disse, não disse?"
Tudo que aprendeu valeria por apenas aquele momento de satisfação suprema.
E com esse pensamento e essa certeza mais do que nunca pulsando em seu peito, ajeitou os trapos que lhe serviam de roupas e deu o próximo passo e o próximo. Enfim seguiu.
Confiante e com um sorriso franco e cruel no rosto - o sorriso daqueles que sabem lutar. E que esperam.

Texto escrito em 03/12/2010.

Trajetória dos desejos


E se eu morrer amanhã? E se não restar tempo, ao menos mais 24 horas, para existir? E se o fim estiver próximo, se eu não vir o sol raiar, se o dia não se apresentar, se despertar em outro plano?
Então terá sido muito tarde. Tarde para levantar da cama, tarde para abrir os olhos, tarde para tirar o pijama, calçar os sapatos e começar mais um dia. Tarde para sonhar, para concluir, para desejar, para sentir, para dizer. Para dizer. Força de expressão cheia de significados.
Pensava nisso enquanto sacudia dentro daquela lata velha de almas. Daquele encontro de tantos mundos, que naquele momento não estão nada satisfeitos, aperto coletivo de indignações.
Grata exceção dos dias comuns que ali me encontro: o espaço vazio. Grata mesmo, visto que em poucos instantes, tudo se aglomerou por todo canto. É um ótimo lugar para se pensar - e para observar.
O mundo passa rápido pelos olhos. Tudo a mesma coisa, tudo do mesmo jeito, tudo no mesmo lugar. Mas é diferente todos os dias. Mesmo com os mesmos rostos cansados.
Melodias diversas em minhas mãos se misturam com o ambiente e fazem o cenário parecer mais comum do que nunca. E era, e não era. Me peguei desejando.
Com um lapso rápido de pensamento, viajei por tantos momentos. Imaginei tantas coisas, tive tantas revelações. Rezei para que não fossem embora como as listras pintadas no asfalto. Queria guardar tudo aquilo para não esquecer. Mas estava impedida, munida só de memória. Ainda estou segurando aqui tudo quanto me recordo, enquanto escrevo.
Uma música em especial que não sai da cabeça. Um sonho antigo. Imaturidade ou inconstância, não sei o nome. Tudo que vejo e vivo me faz sonhar demais. Isso me deixa com raiva. Quero me conformar. Mas... como?
Todas essas novidades que se apresentam. Ai, que preguiça de mim. Gosto de estar sozinha nessas horas. Gosto de deixar a mente voar longe. Gosto de me ver em outros corpos, gosto de desenhar faces, gosto de dar movimento às silhuetas perfeitas nos meus olhos. Gosto de ver a sequência de cenas, acontecendo depressa. Nesse momento, paro. Volto. Vejo de novo, quero detalhar. O máximo possível. Cheiros, gostos, toques, cores, sons, física e química. Tão real que perco a noção do tempo e do espaço. Delicioso, proibido, quase impossível.
Que vontade de morar na música. Que vontade de ser o sonho. Que busca frenética irritante. Conforma-se, criatura, trate de caber em si! Não dá, passou da medida. Que não me ouçam os pensamentos todos esses seres, até vergonha dá. Mas é tão incrível que me faz sorrir e tremer de emoção! Quem sabe não é a chance de materializar um ideal? E mudar-me lá para dentro, por algum tempo ao menos.

Eu quero ser tanta gente diferente. E tem tanta gente no mundo. Se viver por mais de cem anos, não conhecerei nem o suficiente para encher um bairro inteiro. Mas eu quero ser gente dos contos, meus contos tão meus.
Mas... e se eu morrer amanhã? Perco todo esse tempo. Nem sei se é tanto assim, mas preciso dele, preciso de cada minuto, segundo, preciso, quero, nem que seja só pra estar ali por aquela quase hora, na lata velha de almas, apertada demais e onde cabem todos os meus segredos num espaço de quase três minutos repetidos tantas vezes.

Texto escrito em 01/06/2010.

segunda-feira, 26 de novembro de 2012

Flor de Cerejeira


Minha flor de cerejeira.
Linda e cheia de significados.
Só floresce no tempo certo.
Alegra tudo por onde passa, faz sorrir a todos com a delicadeza de simplesmente existir.
Mas tão linda quanto rara, dura pouco tempo. São daquelas maravilhas sem explicação, que não podem permanecer ao nosso alcance: a gente sabe que existe, olha, aprecia a sua presença, e vai embora.
“Até o ano que vem”, ela nos diz.
Tem gente que tem cheiro de colo de Deus, como já disse o poeta.
Gente que faz com que a presença Dele se prove.
Gente que é presente na ausência.
Gente que faz parte da gente.
Gente assim, que traz lembranças recheadas de cumplicidade em um por do sol por cima do muro, numa manhã de céu com cores de segredos sagrados.
É pacto selado, é laço mais forte que o ferro mais bruto, maior que a montanha mais alta, mais gostoso e mais bonito que dia de frio com sol e chocolate quente na caneca.
Se meu coração tivesse nome, as tuas letras estariam gastas no meu peito, de tantas vezes que já foram escritas. E borradas pelo suor do meu rosto e pelo derramar de minhas lágrimas.
Amor? Amizade?
Sim, eu conheço.
Em poucas almas, mas com a força necessária pra reconhecê-los a longa distância, como velhos e queridos amigos. Suficientes para arrancar um sorriso tímido de um rosto condoído. Tão suficientes que não deixam margem de dúvidas, e fazem o dia seguinte ter um leve e sutil sabor de esperança.
Que fazem a minha solidão parecer um menino cheio de birra, encolhido e emburrado no cantinho do quarto.

Texto escrito em 25/05/2010.

domingo, 25 de novembro de 2012

Saudosa maloca, como na música


O tempo não pára. O mundo continua girando, os dias e as noites se sucedendo, o relógio caminhando em círculos contínuos, sempre na mesma direção.
Sinto saudades.
Saudades de coisas vividas, de pessoas vistas, de conversas tidas, de risadas incontidas.
Sinto falta dos dias de chuva, de olhar a água correndo pelas guias de minha rua, das folhas secas levadas pelo vento e dos galhos dos meus pinheiros balançando pra lá e pra cá, numa dança misteriosa e embalada.
Sinto falta das manhãs frias, daquele rastro de sol apenas, que cortava as nuvens clarinhas e vinha se deitar em minha janela.
Saudades das roupas dobradas sempre no mesmo lugar, da mesma melodia ao despertar, da pressa de ir aonde sempre ia.
Sinto saudades de caminhar lado a lado com aquele irmão, de trocar idéias bobas, de falar besteiras que ficaram marcadas nas pedras da travessia. Saudades do vício escondido, que me fazia sentir tão fora da lei, tão adulta, tão dentro daquela nossa realidade adolescente.
Meu peito dói ao lembrar do aperto no degrau, das confidências matinais, do primeiro cigarro e do primeiro sorriso do dia.
Sinto falta das roupas largadas, do jeito despojado, relaxado, impensado. De ser assim e de ser igual. De ser assim como todo mundo e de ser tão legal.
Sinto saudades imensas de uma das minhas partes, de laços eternos. Das mentirinhas bestas pra impressionar os mais jovens e nos aproximar dos mais velhos. Saudades das festas infantis e dos passos combinados.
Saudades das danças decoradas. De sentar na calçada e comer bolacha, de jogar bola na rua, de escrever em cadernos, de cantar velhas canções, colecionar CD's, papéis de cartas, de desenhar nas paredes do quarto, de fazer arte no tênis, de passar madrugadas perdida em planos e sonhos pra adultos.
Há pouco, ouvi que pra ganharmos faz-se imprescindível perdermos.
Ganhei muito. Vivi muito, amei muito, chorei muito, sofri muito, sorri muito.
Me arrependi do que fiz, do que não fiz, do que poderia ter feito e do que deveria ter feito.
Vi pessoas nascendo, pessoas morrendo, andei descalça, subi morros, me escondi, reclamei, eu vivi.
Perdi muito. Mais do que poderia imaginar. Mais do que posso escrever que perdi. Perdemo-nos. O mundo girou, e levou cada um de nós para um lado. Vértices separados da mesma figura complexa.
Tento, ainda, me encaixar em uma nova geometria. Mas tudo parece um círculo, onde não há lados e pontos de união.
O que mais sinto saudades é de fazer parte dessas saudades.
Quero ter um lugar pra chamar de meu.

"Saudosa maloca, maloca querida, dim dim donde nóis passemo dias feliz de nossas vidas".

Texto escrito em 14/04/2010.

sábado, 24 de novembro de 2012

Dose de veneno


Estranho é ser assim, tão cansado de mim.
Buscar a dor, em uma forma de sentir... a si mesmo.
A procura constante daquilo que lhe derreterá a carne,
Envenenará a alma e encherá de fagulhas o coração.

Pra que? Pra provar que ainda é capaz de sentir
Ainda capaz de degustar o sabor amargo do ódio
Um ódio que não tem porque, só pelo prazer de senti-lo.
Amar e desejar o sentir mortal do fel do ódio.

Naquela caça desenfreada por enxergar mais além,
Mesmo antes que os olhos tocassem o ponto de encontro,
Mesmo antes que o foco fizesse cenário de fundo dessas sensações.
Pra nada. Só pra encontrar um motivo, só pra ter o seu porquê.

O antes não fazia parte do teu agora.
O teu agora só te mostra o que há de real, mas somente agora.
E pra ti, apenas o depois. A sina do futuro.
Ah, mas como é instigante o desconhecido.

Mórbida curiosidade que corrói o peito
Que amarra os membros, e que te leva sorrateiro...
Procurando matar a sede de sentir... raiva.
Busca-se apenas uma razão pra justificar-se.

Sente-se mal quando não encontra.
Frustrado. Idiota. Incapaz. Comum.
E você sabe que isso não o leva a nada.
Mas você não pára, não cansa.

Se excita. Transpira, morde, anseia, tortura!
Delicioso veneno.
Enfim. Encontra. Pára. Sente. Saciou?
Ah, sim. Passou. E no lugar?
A dor que você procurou.


Texto escrito em 23/11/2009.

sexta-feira, 23 de novembro de 2012

Súplica de um sonho


Não me acordes, por favor.
Peço-te, deixe-me aqui algum tempo, envolta na penumbra insaciável.
Quão incrível seriam os dias, se de noite fossem feitos.
A luz que faltaria da estrela maior, facilmente esquecida, fronte o brilho dos teus olhos.
O calor que invade a aurora não seria necessário perante o abrigo dos teus braços.
Para que despertar, então?
Deixa-me aqui, faz silêncio, apenas acolhe-me em teu peito.
E se meus olhos não se abrirem, não te assustes.
Não me chame, não pergunte.
São os espelhos dessa alma, descansado em tua mente.
Saiba-me aqui, apesar da escuridão.
Sinta-me, e não me veja.
Toque-me, e não me procure.
Somente a madrugada será testemunha dos meus desvarios, e só nela encontro o ardor e a calma para os meus anseios.
E se o clarear do firmamento se fizer presente em nossa janela, esqueça-o.
É apenas o Sol, nos espiando, invejoso que está da dádiva que tem a Lua, por poder acompanhar-nos a satisfação que só encontramos no negro do céu.
Ouça.
Ouça meu apelo desmedido e o quanto imploro a ti.
Deixa-me assim.
Cala-te em meus lábios, ou leva-me contigo.
Pois que se, lá fora, fizer-se o magnífico espetáculo do crepúsculo,
aqui dentro meu raiar findará.
Não escute o chamado maldoso do dia que se faz, fica aqui.
Fica perto.
Sei que a hora de partires se aproxima, mas quero ter-te, ainda.
Se fosse possível, seria eu a própria noite, e sempre comigo estarias.
No entanto, não há disfarces para a luz da natureza.
Só peço-te, não me acordes.
Desperta-me quando o abominável Astro-rei esconder-se,
e novamente tua presença se fizer, imponente, ao meu lado.
Até lá:
NÃO PERTURBE.

Texto escrito em 11/06/2008.