E se eu morrer amanhã? E se não restar tempo, ao menos mais
24 horas, para existir? E se o fim estiver próximo, se eu não vir o sol raiar,
se o dia não se apresentar, se despertar em outro plano?
Então terá sido muito tarde. Tarde para levantar da cama,
tarde para abrir os olhos, tarde para tirar o pijama, calçar os sapatos e
começar mais um dia. Tarde para sonhar, para concluir, para desejar, para
sentir, para dizer. Para dizer. Força de expressão cheia de significados.
Pensava nisso enquanto sacudia dentro daquela lata velha de
almas. Daquele encontro de tantos mundos, que naquele momento não estão nada
satisfeitos, aperto coletivo de indignações.
Grata exceção dos dias comuns que ali me encontro: o espaço
vazio. Grata mesmo, visto que em poucos instantes, tudo se aglomerou por todo
canto. É um ótimo lugar para se pensar - e para observar.
O mundo passa rápido pelos olhos. Tudo a mesma coisa, tudo
do mesmo jeito, tudo no mesmo lugar. Mas é diferente todos os dias. Mesmo com
os mesmos rostos cansados.
Melodias diversas em minhas mãos se misturam com o ambiente
e fazem o cenário parecer mais comum do que nunca. E era, e não era. Me peguei
desejando.
Com um lapso rápido de pensamento, viajei por tantos
momentos. Imaginei tantas coisas, tive tantas revelações. Rezei para que não
fossem embora como as listras pintadas no asfalto. Queria guardar tudo aquilo
para não esquecer. Mas estava impedida, munida só de memória. Ainda estou
segurando aqui tudo quanto me recordo, enquanto escrevo.
Uma música em especial que não sai da cabeça. Um sonho
antigo. Imaturidade ou inconstância, não sei o nome. Tudo que vejo e vivo me
faz sonhar demais. Isso me deixa com raiva. Quero me conformar. Mas... como?
Todas essas novidades que se apresentam. Ai, que preguiça de
mim. Gosto de estar sozinha nessas horas. Gosto de deixar a mente voar longe.
Gosto de me ver em outros corpos, gosto de desenhar faces, gosto de dar
movimento às silhuetas perfeitas nos meus olhos. Gosto de ver a sequência de
cenas, acontecendo depressa. Nesse momento, paro. Volto. Vejo de novo, quero
detalhar. O máximo possível. Cheiros, gostos, toques, cores, sons, física e
química. Tão real que perco a noção do tempo e do espaço. Delicioso, proibido,
quase impossível.
Que vontade de morar na música. Que vontade de ser o sonho.
Que busca frenética irritante. Conforma-se, criatura, trate de caber em si! Não
dá, passou da medida. Que não me ouçam os pensamentos todos esses seres, até
vergonha dá. Mas é tão incrível que me faz sorrir e tremer de emoção! Quem sabe
não é a chance de materializar um ideal? E mudar-me lá para dentro, por algum
tempo ao menos.
Eu quero ser tanta gente diferente. E tem tanta gente no
mundo. Se viver por mais de cem anos, não conhecerei nem o suficiente para
encher um bairro inteiro. Mas eu quero ser gente dos contos, meus contos tão
meus.
Mas... e se eu morrer amanhã? Perco todo esse tempo. Nem sei
se é tanto assim, mas preciso dele, preciso de cada minuto, segundo, preciso,
quero, nem que seja só pra estar ali por aquela quase hora, na lata velha de
almas, apertada demais e onde cabem todos os meus segredos num espaço de quase
três minutos repetidos tantas vezes.
Texto escrito em 01/06/2010.
Texto escrito em 01/06/2010.

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