Era uma vez uma boneca de pano. Costurada por hábeis e
gentis mãos, repletas de rugas e marcas da vida. A mulher que a fez não gostava
de falar a respeito de si, não tinha amigos, não tinha parentes. Era uma mulher
quieta, introspectiva. Carregava no olhar o peso da solidão, talvez de alguma
dor sem cura. Mas era doce, procurava falar pouco, porém com respeito.
Manuela era seu único orgulho. Tinha o sonho de ter uma
filha desde sua infância, quando as bonecas que via estavam sempre atrás de
vidros grossos, escondidas nas prateleiras das vitrines. Nunca pudera ter uma.
As condições em que vivia, ela e seu pai, não lhes permitia o luxo de ter
brinquedos. Por isso, e talvez só por isso, tenha nascido Manuela. O destino
não lhe dera bonecas. Também não lhe dera filha ou filho.
Aquela mulher nem era costureira. Tampouco era artesã. Mas
por alguma razão que desconhecia, passara anos juntando pedaços de pano.
Trapos. Não sabia o que faria com eles, mas tinha necessidade, quase uma sede,
de guardá-los. Achava-os lindos. Macios. As vezes, gostava de pegar os mais
coloridos e olhar bem de perto, contra a luz, só para ver os finíssimos fios
entrelaçados, tão próximos, tão unidos. Juntava seus pequenos restos de tecido
e, ao final de cada mês, contava quantos recortes havia conseguido e os
alinhava. Colocava-os todos dentro de uma caixa empoeirada ao lado de sua cama.
Foi assim por 9 anos.
Um dia, resolveu que já havia juntando demais. Era quase
maldade deixar ali, aqueles retalhos todos, esquecidos e amontoados numa caixa,
em um canto qualquer de um quartinho meio mofado. Saiu de casa disposta a
dar-lhes um rumo. Entrou no minúsculo armazém de uma única porta estreita que
havia em sua rua vermelha. Com os poucos trocados que tinha, comprou dois
carretéis de linha preta, três agulhas de diferentes tamanhos e voltou pro seu
buraco.
Entrou pela porta surrada como se fugisse de balas de
canhão. Fechou-a atrás de si e deixou-se encostar por alguns instantes, estava
eufórica. Mas não sabia o motivo. Uma excitação sem nome tomou conta de seus
sentidos, sorriu sem ver, agarrada ao saco pardo com seus poucos e novos
pertences. Encarou a caixa e foi em sua direção. O objeto parecia se mover,
parecia pular. Parecia que estava pedindo, suplicando por algo. Ela sentou-se
aos pés da cama, no chão, puxou a caixa para perto de si e abriu.
Manuseou cada pedaço de pano, separou algumas cores que
achou interessante, algumas texturas variadas. Puxou o saquinho, sacou uma
agulha e mediu a linha. Não sabia o que estava fazendo, nem sequer sabia
costurar, por Deus! O que faria com aquilo? Porém, não podia ser tão difícil.
Tinha que tentar, suas mãos estavam tão quentes que poderia facilmente queimar
o tecido. Com os dentes, cortou um pedaço comprido da linha e experimentou na
agulha. Depois de duas tentativas, conseguiu alinhavar. Sentiu-se poderosa! A
miopia ainda não lhe vencera por completo.
Com as mãos tremulas, segurou firme um pedaço de retalho. Um
quadrado lilás, manchado em um dos cantos com um pouco de tinta azul. Da forma
como fora manchado, ela tinha a nítida impressão de ver um formato naquele
borrão. Talvez uma silhueta, uma árvore. Achou muito bonito, como um descuido,
um erro, deu aquele pano simples lilás, sem graça, uma cara toda sua. Tentou
firmar a mão e enfiou a agulha pela borda do pano. Deu uma volta, duas, três.
Tudo bem, alguma coisa sairia dali. Só não sabia o que. Adorou como a linha
preta deu destaque ao lilás e acalmou o borrão azul.
Mas era pouco. Resolveu contar com a sorte: enfiou a mão na
caixa e puxou o primeiro tecido que tocou seus dedos. Um retângulo de flanela
xadrez, azul e branco. Não combinava em nada com sua árvore azul no fundo
lilás. Mas era o que o destino tinha lhe dado, então não trocaria. Colocou o
segundo pedaço por baixo do primeiro e foi dando voltas na agulha. Não sabia
qual caminho seguir, deixou que o acaso guiasse suas mãos pra onde a vontade
lhe mandasse.
O dia tornou-se noite. Seus olhos ardiam e a escuridão não
ajudava. Seu indicador já reclamava pelo quinto furo. Precisava de luz, um
pouco mais. Arrastou-se para perto da janela e a luz da lua banhou-lhe os
cabelos desgrenhados, molhados pelo suor do rosto. Seus olhos estavam embaçados
demais, mas tinha que concluir aquilo. Acendeu um toco de vela, colado ao
parapeito da janela. E continuou.
Quando os primeiros raios de sol tocaram seu rosto, ela deu
a última volta na agulha. Terminou de passá-la no tecido e cortou com os dentes
o que restou da linha. Esticou diante dos olhos o que havia feito: um vestido.
Nada nele combinava: nem as cores, nem as texturas, nem as formas, nada.
Parecia um desenho feito por alguém com quatro anos num dia qualquer da escola.
E havia algo mais, algo vermelho. Seu sangue. Os furos no dedo deixaram ali o
seu protesto. Agora parecia o desenho de uma criança de quatro anos, encontrado
na beira da calçada de uma cidade em guerra, há pelo menos uns 10 anos.
Mas não importava. Era, de longe, a coisa mais bonita que já
vira. Que já fizera. Era seu, inteiramente seu. Seus pedaços de pano, juntados
por tanto tempo, guardados com cuidado, sonhos de alguma coisa que não sabia o
que era. Era a sua linha e a sua agulha, compradas com seus trocados, trocados
que conseguiu trabalhando três vezes por semana naquela lavanderia escura e
quente, muito quente. Poucos centavos que não davam pra nada. Exceto que deram
pra comprar linhas e agulhas. O suficiente pra muito mais do que pensou querer
nessa vidinha sem graça.
Era todo seu. Claro, não caberia nem em si e nem
em ninguém, nem mesmo na criança de quatro anos que poderia ter-lhe desenhado.
Mas era tão importante e especial. Pendurou-lhe na cabeceira da cama, onde
pudesse ver todo o tempo. Enfim, suada, suja, cansada e muito feliz, deitou-se
na cama e adormeceu.

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