segunda-feira, 20 de maio de 2013

A mim

Me erra. Me deixa, me esquece, me lembra.
Me apaga, me inventa, me apavora.
Me cala, me ouve, me veja, me diz. 
Me mostra, me pega, me joga. 
Me abraça, me beija, me toca, me sente, me queira. Me tome.
Me liga, me escreve, me ensina, me visita, me persegue.
Me irrita, me afoga, me acalenta, me aborrece, me acalma.
Me busca, me segura, me perde, me procura, me acha. Me faça.
Me devolve, me vende, me compre.
Me aperta, me morde, me machuca, me marca, me acende.
Me tenha. Me leva.
Me mata, me ressuscita.
Me odeie, me ame.

Me ajuda... me socorre. Me salva.
Só não me iluda, não me engane e, acima de tudo: não me crie expectativas vãs.
E não me peça para parar o que você quer que eu continue.

domingo, 12 de maio de 2013

Pode levar pra casa?


Doce. Mais doce que caramelo, chocolate, bala de côco e céu azul. 
Doce e sútil. Doce e macio. 
Gosto de proteção, de segurança, de “deixa que eu te levo”. 
Doce como mel, que escorre da boca, desce pescoço abaixo e faz trilha no corpo. Quente e espesso. Avassalador, vendaval que passa e leva o que vê pela frente. Mas que toca o rosto de leve, uma brisa. Brisa que entra pelos poros, que envolve, que toma para si. Que arrepia cada pelo do corpo só de lembrar teu cheiro, agora impregnado em minha carne.
- De onde surgiste?

Arrancaste-me todos os pudores, despiu-me a armadura, tomaste minhas armas. Em um simples piscar de olhos, queres desvendar-me todos os mistérios. Tudo que me torna o que sou e como cheguei até aqui. Em uma fração de segundos, conheceste parte de minha caminhada, regada a passos largos, tropeços, quedas, curvas e muitas flores. Não sei como chegaste a tanto, não sei nem como chegaste a mim.
E daí se materializaram todos os meus desejos e guardaram em um pacote todo lindo e embrulhado para presente? 
Brinde. Não é? Mas o que foi que comprei, que não sei, que não vi e nem me lembro, que me trouxeste de brinde algo assim, tão valioso? Pouco me importa. Se me foi dado, troco o que quer que tenha comprado ou ganho ou encontrado, só por esse pacotinho de brinde. 
Minha caixa de Pandora.

Sem medo e sem pensar, abri. Mas nem de longe encontrei todos os infortúnios que promete a lenda. Tinha cheiro do que eu gosto, e veja bem que nem eu sabia mais do que gostava. A combinação perfeita. Tantas coisas que nem soube o que fazer com tudo... e tive medo de “gastar” tudo que tinha e acabar. Mas como saciar o que não tem limites?

Reservo-te a graça e glória do amanhã. 
Sem amarras que seguram e sem foices que podam. 
Reservo-te a ansiedade do próximo passo, da surpresa. 
Reservo-me. Para ti e para mim.
E assim, vou morar contigo dentro dessa caixa. 

Nela, encontrei a chave. Encontrei sinais e pontos. 
Meu ponto final. Meu ponto de partida. 

quarta-feira, 8 de maio de 2013

Desvenda-me

E de tanto esperar o momento certo, eis que tudo se dá no momento errado. Mas de tanto erro esperado, talvez seja cometido da maneira certa, sabe-se lá. Há tanta contradição quando não se atenta ao que se deve ou precisa fazer, quando se adia o inevitável.
Mas hoje, queria pedir-te que cale meus lamentos. Silencie meu tormento, acalenta meu pranto e sossega meu corpo, minha alma. Sacia essa dor latente que me corrói por dentro, esse medo que nem sei de que. Aperta minhas mãos entre as suas e sela minha boca com a tua leveza de ser. Agarra meus cabelos e leva-me ao teu mundo, onde a liberdade casa com o desejo de ser o que se quer e se pode ser.
Não me poupe nada, eu não quero a sua piedade e cuidado. Eu quero instinto, eu quero carne, sangue. Teste meus limites! Leva-me daqui em teus braços e me tome, mande e comande. Marca minha pele com o teu suor. Apaga meus pensamentos e que, nessa hora, tornemo-nos um nó, um só, pó.
E depois, se o mundo ruir, que meus lamentos se tornem a voz mais alta. Quero ser só tempo e vento, dentro de ti.

terça-feira, 7 de maio de 2013

Sem saída

Valha-me, Deus! Que meus gritos sejam feitos de silêncio, pois que se minha voz alcançar os patamares que deseja, não haverá pulmão que nos aguente!
Assim, Anita desperta de seu sono conturbado. A noite ainda aperta lá fora e ela corre pra verificar se a porta estava trancada. Pela milionésima vez. Trocara sua armadura cedo demais... sem grandes certezas se deveria abandonar a guerra, ceder ao adversário ou simplesmente o contrário, buscar reforços e arquitetar um contra-ataque que surtisse efeito.
A menina não sabia nada. Perdera até mesmo sua identidade, soterrada naqueles escombros de cinza e chumbo. Tanto tempo se passou e tanta coisa ela viu! O marasmo tornou-se velho companheiro, pois naqueles dias sem sol, apesar de toda parafernália que se juntou nos cantos, era só o que lhe restava. Funcionava assim: "entre mortos e feridos, salvaram-se todos". Porém, mal sabia ela (ou sabia e não se permitia admitir) que nem sempre "salvar-se" era o prêmio, o melhor. Ferir-se, sujar-se, talvez fosse disso que precisasse e o que tanto lhe fazia falta. Mas acostumou-se ao de sempre, ao que o mundo de sombras lhe conferia.
Não fora por falta de esforços de seus companheiros de batalha, diga-se de passagem, que Anita desistira de lutar. Entregou-se por covardia, por falta de incentivo maior e por medo. Não havia mais desculpas e ela não fazia mais questão de buscá-las, tampouco. Acordava no mesmo campo, com as mesmas vestes e as mesmas armas, enferrujadas e sem serventia. Quantas vezes fora carregada, nem sempre com muita maestria, para que não sucumbisse por uma bomba qualquer que (de bom grado, pensava, as vezes) que lhe caísse na cabeça. Só pensava em salvar seu coração, mesmo que isso lhe custasse os braços, pernas e entranhas, célula por célula. Só ele lhe importava e só por ele ainda fazia questão de sair do seu mundinho particular. Custara-lhe tanto tempo e tanto esforço, seu coraçãozinho tão vermelho, que não podia e nem iria entregá-lo de bandeja nas mãos de quem quer que fosse.
Mas um belo dia, quando, novamente, entregara-se ao fim da exaustão, esperando mais do mesmo, alguma coisa aconteceu. Decidiu testar até onde conseguiria caminhar - se é que ainda tinha essa alternativa. Vestiu-se, agarrou forte suas armas e saiu a campo. Àquela hora, tudo era silêncio e escuridão. Tudo quieto, como se nada acontecesse há mil séculos naquele lugar. Andou por vales e trilhas, viu corpos e fumaça. Esperava ouvir o som da agonia de um ou outro moribundo, mas nem isso. Caminhou tanto, mas tanto, que as pernas fraquejaram. Sentou no chão, pronta para estirar-se na relva verde, o cheiro da chuva que se anunciava entrando pleno em seus pulmões doloridos... e então, quando curva seu corpo, bate em uma enorme muralha. Parecia simplesmente impossível não ter visto aquele "mundo" de pedra ali, mas era assim que se deu. Já ia levantar-se e xingar, maldizer sua péssima ideia ao sair no meio da madrugada, mas quando endireitou-se e recostou as costas ali... algo mudou. Sua impressão inicial era de estar sendo abraçada por aquele monte de concreto. Quente, muito quente... macio e estranho e complicado.
Anita aconchegou-se mais e sentiu-se encaixar. As dores de sua alma e corpo pareciam amenizar, era quase como música. Pra quem fazia questão de tapar os ouvidos, achando-se surda pelo tempo, música era a expressão mais bonita de sua alma. Não sabia reconhecer, mas era doce, tão doce que podia provar o sabor do que não tinha paladar.
Agora, a menina encontrava-se na maior bifurcação de sua vida: virar-se e ir embora, de volta ao seu mundo, protegido por sua insegurança, porém seguro em panorâmica, ou tentar transpor aquela muralha, preparando-se para ver o que havia além dela. O novo era assustador, mas tentador demais, tudo ao mesmo tempo. Nunca antes ela tivera tanta dúvida sobre qual caminho seguir... nunca antes havia tanto a se ponderar como naquele momento. A guerra era difícil e cansativa, mas era a sua guerra. A batalha que ela mesma travara e de onde não saberia sair. Mas a curiosidade e a sede de "mais" lhe apertavam até a última gota de sangue.
Anita não sabia o que fazer e nem pra que lado seguir. Sabia, porém, que aquela muralha era apenas o primeiro degrau de sua alçada, de seu desejo. Queria mais, muito mais. Mas ainda precisava desprender-se e, nesse desprendimento, provar que tinha mais valor do que uma simples ambulante de madrugadas. Caminhadas não desfaziam seu caráter e nem maculavam o que sentia, mas a maneira com que dava cada passo sim, e era isso que deveria refletir. Mas ah... estava aflita como o inferno para ultrapassar aquele concreto quente. Não queria se encontrar, só queria se perder.