Valha-me, Deus! Que meus gritos sejam feitos de silêncio, pois que se minha voz alcançar os patamares que deseja, não haverá pulmão que nos aguente!
Assim, Anita desperta de seu sono conturbado. A noite ainda aperta lá fora e ela corre pra verificar se a porta estava trancada. Pela milionésima vez. Trocara sua armadura cedo demais... sem grandes certezas se deveria abandonar a guerra, ceder ao adversário ou simplesmente o contrário, buscar reforços e arquitetar um contra-ataque que surtisse efeito.
A menina não sabia nada. Perdera até mesmo sua identidade, soterrada naqueles escombros de cinza e chumbo. Tanto tempo se passou e tanta coisa ela viu! O marasmo tornou-se velho companheiro, pois naqueles dias sem sol, apesar de toda parafernália que se juntou nos cantos, era só o que lhe restava. Funcionava assim: "entre mortos e feridos, salvaram-se todos". Porém, mal sabia ela (ou sabia e não se permitia admitir) que nem sempre "salvar-se" era o prêmio, o melhor. Ferir-se, sujar-se, talvez fosse disso que precisasse e o que tanto lhe fazia falta. Mas acostumou-se ao de sempre, ao que o mundo de sombras lhe conferia.
Não fora por falta de esforços de seus companheiros de batalha, diga-se de passagem, que Anita desistira de lutar. Entregou-se por covardia, por falta de incentivo maior e por medo. Não havia mais desculpas e ela não fazia mais questão de buscá-las, tampouco. Acordava no mesmo campo, com as mesmas vestes e as mesmas armas, enferrujadas e sem serventia. Quantas vezes fora carregada, nem sempre com muita maestria, para que não sucumbisse por uma bomba qualquer que (de bom grado, pensava, as vezes) que lhe caísse na cabeça. Só pensava em salvar seu coração, mesmo que isso lhe custasse os braços, pernas e entranhas, célula por célula. Só ele lhe importava e só por ele ainda fazia questão de sair do seu mundinho particular. Custara-lhe tanto tempo e tanto esforço, seu coraçãozinho tão vermelho, que não podia e nem iria entregá-lo de bandeja nas mãos de quem quer que fosse.
Mas um belo dia, quando, novamente, entregara-se ao fim da exaustão, esperando mais do mesmo, alguma coisa aconteceu. Decidiu testar até onde conseguiria caminhar - se é que ainda tinha essa alternativa. Vestiu-se, agarrou forte suas armas e saiu a campo. Àquela hora, tudo era silêncio e escuridão. Tudo quieto, como se nada acontecesse há mil séculos naquele lugar. Andou por vales e trilhas, viu corpos e fumaça. Esperava ouvir o som da agonia de um ou outro moribundo, mas nem isso. Caminhou tanto, mas tanto, que as pernas fraquejaram. Sentou no chão, pronta para estirar-se na relva verde, o cheiro da chuva que se anunciava entrando pleno em seus pulmões doloridos... e então, quando curva seu corpo, bate em uma enorme muralha. Parecia simplesmente impossível não ter visto aquele "mundo" de pedra ali, mas era assim que se deu. Já ia levantar-se e xingar, maldizer sua péssima ideia ao sair no meio da madrugada, mas quando endireitou-se e recostou as costas ali... algo mudou. Sua impressão inicial era de estar sendo abraçada por aquele monte de concreto. Quente, muito quente... macio e estranho e complicado.
Anita aconchegou-se mais e sentiu-se encaixar. As dores de sua alma e corpo pareciam amenizar, era quase como música. Pra quem fazia questão de tapar os ouvidos, achando-se surda pelo tempo, música era a expressão mais bonita de sua alma. Não sabia reconhecer, mas era doce, tão doce que podia provar o sabor do que não tinha paladar.
Agora, a menina encontrava-se na maior bifurcação de sua vida: virar-se e ir embora, de volta ao seu mundo, protegido por sua insegurança, porém seguro em panorâmica, ou tentar transpor aquela muralha, preparando-se para ver o que havia além dela. O novo era assustador, mas tentador demais, tudo ao mesmo tempo. Nunca antes ela tivera tanta dúvida sobre qual caminho seguir... nunca antes havia tanto a se ponderar como naquele momento. A guerra era difícil e cansativa, mas era a sua guerra. A batalha que ela mesma travara e de onde não saberia sair. Mas a curiosidade e a sede de "mais" lhe apertavam até a última gota de sangue.
Anita não sabia o que fazer e nem pra que lado seguir. Sabia, porém, que aquela muralha era apenas o primeiro degrau de sua alçada, de seu desejo. Queria mais, muito mais. Mas ainda precisava desprender-se e, nesse desprendimento, provar que tinha mais valor do que uma simples ambulante de madrugadas. Caminhadas não desfaziam seu caráter e nem maculavam o que sentia, mas a maneira com que dava cada passo sim, e era isso que deveria refletir. Mas ah... estava aflita como o inferno para ultrapassar aquele concreto quente. Não queria se encontrar, só queria se perder.