terça-feira, 3 de fevereiro de 2015

O texto do verbo só

          Aqui, nessa sala fria e incolor, tão sozinha quanto me sinto por dentro, ao menos tenho tempo para pensar. Parada, no meio de tudo tão novo e imparcial e sem muita personalidade, eu combino perfeitamente com o ambiente: minha alma parece vazia, sem graça, sem vida. Talvez eu seja podre por dentro. Talvez seja egoísta demais, incompreensiva, implacável. Pode ser que todas as tentativas de “aquecer” meu coração tenham sido em vão. Talvez ele não estivesse apenas frio... provavelmente, morto. E eu, que me apeguei a uma única esperança, depositei toda minha fé e fiz todo último e maior esforço acreditando nesse imbecil que bate no meu peito. Batia. Talvez, tudo que eu pensei que fosse vida, era só um daqueles espasmos pós-morte. Como os dedos dos cadáveres, que de vez em quando se mexem e assustam quem estiver por perto. E eu me apeguei tanto a isso...
          Ouvi muitas vezes numa música a frase “será que amar é mesmo tudo?”... eu acredito que não. Amar por amar é só um verbo. Amor é só um substantivo – que nem próprio é. O sentimento que carrega esse nome se conjuga de mil formas: eu respeito, tu ouves, ele compreende. Nós combinamos, vós aceitardes, eles abraçam. Eu ouço, tu beijas, ele cala. Nós consentimos, vós defenderdes, eles falam. Eu confio, tu aprendes, ele duvida. Nós brigamos, vós entendeis, eles cuidam. Eu sorrio, tu afrontas, ele chora. Nós conversamos, vós condenardes, eles ensinam. E assim, os pronomes amam. Todos eles.

          Acho que esse é meu problema. Complicar demais as coisas. Querer entender demais, detalhes milimétricos de tudo. Provavelmente, a maioria das coisas não pode ser tão explicada, não pode – e nem tem – tantos motivos quanto eu acho que tem. Elas são porque são. Acontecem porque tem que acontecer. São feitas porque são feitas e pronto. Sem razão, só impulso ou sei lá, ócio, preguiça. Talvez, por isso, o amor devesse ser só o amor e pronto, e eu bem gostaria de aceitar isso. Mas eu nunca facilito, infelizmente.


          E eu, que tanto peço aos outros que não me idealizem (me acho tão comum pra isso), idealizei demais nas minhas conjugações. Usei verbos demais nas minhas explicações e junções e uniões e toda corja de mais “ões” que existirem no vocabulário. E de todos eles, de tantas variações e flexões, eu acabei com um bem simples, único. E nesse sim, cabe apenas ele, pois que se basta em seu significado: eu perdi. 

          E, cá entre nós: “se isso não é amor, o que mais pode ser? Estou aprendendo também”.

sábado, 7 de dezembro de 2013

"Desquerendo-te"

Tudo que eu quero, nesse momento, é não te querer. Nunca quis tanto uma coisa nessa vida. Eu quero não mais chorar pensando em ti. Não quero mais que tu sejas meu último pensamento antes de dormir e muito menos o primeiro, ao acordar.
Eu quero sentar no sofá e que tu te sentes do outro lado. Não quero ter que encostar-me em ti. Quero trancar a porta do banheiro na hora do meu banho. Quero deitar-me pra dormir e ficar do meu lado da cama. Ler meu livro em silêncio enquanto tu assistes um dos teus vídeos engraçados na internet. E depois virar de lado e dormir tranquila, sem precisar que teus braços envolvam-me a noite inteira. Eu quero levantar-me e que tu não estejas mais ao meu lado, que já tenhas saído para trabalhar e feito teu próprio café. Não quero que tenhas que me ligar a cada hora do dia só pra saber como eu estou e o que fiz até aquele momento.
Eu quero sair para fazer compras e deixar-te em casa, cuidando da bagunça. Quero sair do trabalho e que tu não estejas me esperando na porta. Que eu não tenha que buscar-te na saída da faculdade. Quero sair às sextas-feiras com as minhas amigas e que nossos assuntos nada tenham a ver contigo.
Tudo que eu mais quero, nesse momento, é não te querer dessa maneira. Com esse desespero... como se fosse a última vez, como se eu corresse o risco de jamais ver-te novamente. Como se cada minuto tivesse que durar um dia inteiro.

E eu quero tudo isso simplesmente porque, quando eu me sentir assim, significa que tu estarás ao meu lado em definitivo. Sem mais despedidas. E que eu poderei despir-me dessa angústia, dessa pressa, dessa agonia. Pois saberei que, se eu perder a chance de um beijo pela manhã, eu poderei roubá-lo a tarde. Que se tu não me abraçares a noite, eu o abraçarei de manhã e nos amaremos antes do café. E não precisaremos fazer isso todos os dias, pois teremos todos os outros e os que quisermos. Não quero mais precisar de ti para respirar, pois quero que sejas meu próprio ar. Eu quero sentir-me assim porque o amo demais. Pois só assim saberei que és meu para sempre.

segunda-feira, 21 de outubro de 2013

Canhões e flores

Nós somos gladiadores e essa é a nossa arena de sonhos.
Oponentes que lutam do mesmo lado, pelo mesmo prêmio.
Nessa luta omissa, em nossos golpes sutis, somos mais autodefesa que vontade de atacar. Ferimos, sim, mas a intenção nem de longe significa um anseio de machucar. É mais como uma maneira de mostrar "quem pode mais". Um jeito démodé de vestir a armadura da indiferença quando o corpo está, de fato, encharcado de insegurança. Cada célula estremece, tal como se uma agulha muito fina penetrasse no mais profundo do peito e espetasse cada milímetro do ego e do orgulho. Juramos a nós mesmos não nos importar. Mas é em vão e bem sabemos disso. Cresce a necessidade de autoafirmação, só para mascarar a adrenalina correndo nas veias, exalando pelos poros uma sinfonia, aos berros, de indignação.
Um apega-se à liberdade. O outro, ao cárcere. E nessa batalha, nenhum dos lados obtém vantagem. Estampamos sorrisos nos rostos bem treinados, erguemos o corpo, em reles tentativa de provar uma imponência que não existe. Usamos o cotidiano como arma. Mas os elmos dourados que nos cobrem a face tão pesadamente, em nada impedem nossos olhos de reclamar os direitos da alma. A mesma alma, fragmentada apenas, nesse pequeno espaço infinito de tempo.

E a noite, quando despimo-nos de toda essa parafernália, podemos, enfim, dar vazão a tudo do que somos feitos. Longe de nosso cenário compartilhado, quando livres dos escudos que carregamos, os corpos pesam mais que chumbo. Porque de toda essa nossa guerra muda, só o que queremos ainda silenciar são os gritos ensurdecedores que clamam um pelo outro. Calar a sua boca com a minha boca e deixar extravasar todo esse ódio pelo infortúnio do destino no calor e no suor de nosso desejo doentio e louco. Amamos nos odiar, odiamos nos amar. De nossos imensos canhões de ferro, só flores atiramos.

sexta-feira, 18 de outubro de 2013

Devora-te a ti mesmo

Caros, sejam bem-vindos. Essa noite, eu serei seu Maître. 
Por favor, deixem-me pegar vossos casacos, restos de alguma coisa morta, verdadeiro primor. Sentem-se e apreciem o banquete, livres de quaisquer preocupações com o bom senso, com a vergonha, com a consideração ao próximo. Aqui, não lidamos com isso, somos famosos por nossa excelente capacidade de ignorar o que há de valoroso. Nossos ingredientes estão, unicamente, baseados em toda horda inútil de partes alheias sem a menor utilidade, que não seja saciá-los. Sintam-se a vontade.
Gostariam de provar um de nossos deliciosos vinhos? Cálices de sangue fresco, retirado ainda agora da jugular pulsante de um andarilho qualquer. Um desses reles seres que rastejam até nossa majestosa porta, intencionados em mudar-nos o cardápio. Mas não nos tomem por impiedosos, não. Demos-lhe, afinal, o devido e digno abate, livrando-o dessa existência emocional pagã e sem graça.
Como entrada, temos iguaria inigualável: língua. Calamos todo aquele que teima em imprimir-nos qualquer tipo de piedade. Limitamos sua capacidade de falar impropérios sentimentalistas, tais como compaixão e discernimento. Esse tipo de língua só cabe bem na boca de quem as come, jamais de quem as utiliza. Perda de tempo.
Como prato principal, gostaríamos de apresentar-lhe a nossa especialidade: miolos. Convenhamos, amantíssimos convidados, para que precisam dele? Pois se jamais fazem uso da razão! Criaturinhas medíocres que só fazem uso do... Valha-me! Quase estraguei o nosso grand finale!
E eis que a menina de nossos olhos ficou para o final, ilustres amigos. Convidamos, excelentíssimos, para apreciar o que há de mais doce ao paladar. Aqui, nessa badeja de ouro, coloco às vossas graças o motivo de nossa inalcançável fama: um delicioso e totalmente puro e íntegro coração. Músculo imperfeito e intrigante. Permitimo-nos a audácia de servi-lo inteiro, sem nem ao menos tocá-lo, salvo para dispô-lo na bandeja. Embora seu aspecto não seja dos melhores, asseguro-lhes que o sabor... não há comparações. Os temperos que não utilizamos naturalmente, tais como gratidão, compreensão, decência, a raríssima consideração e o quase extinto amor, todos eles estão aí presentes. E aqui, é só para isso que servem. Para serem devorados por vossas senhorias, seres de alta extirpe e nenhuma gota de valores e princípios, cujo próprio coração vive imerso em máscara puritana e encharcada de mentira, hipocrisia e ilusão.
Servir bem para servir sempre, essa é a nossa máxima.
Desfrutem de seu banquete! Bom apetite, agradecemos a preferência.
Nossa intenção é agradar.

quinta-feira, 3 de outubro de 2013

Contos de fadas

“- Mãe... existem mesmo contos de fadas?

Existem, filha. Mas para que eles sejam reais, você precisa ser um príncipe ou uma princesa.
Precisa nascer em um castelo de sonhos... ser uma menina doce, pura e bela... conservar valores de bondade suprema... jamais cultivar em teu coração sentimentos negativos, jamais revidar aos que te fizerem sofrer, devolver amor à ódio, sorrisos à lagrimas e flores à pedras.

- E se a gente não nasce príncipe e princesa, mãe? Podemos nos tornar um?

Não, filha. Quem não o nasce, torna-se um lutador.
Aos guerreiros, não é dada chance dos contos. Guerreiros são forjados em suor, sangue, lágrimas e lama. Não são belos e nem dóceis. Sua pele é espessa e suas mãos, cheias de calos, grossas. Carregam em si as marcas de muitas lutas, cicatrizes profundas de cada amanhecer.

Aos guerreiros, não sobram amores. Para eles, existem os inimigos, os aliados, os parceiros de batalha. Vivem em campos vastos, imensos e vazios. A solidão lhes faz companhia. Desde cedo, precisam aprender a se bastar. Se assim não for, morrem. Morrem por entregarem-se, por desistirem... morrem de dor. A dor de jamais poder pertencer a ninguém.

Seus rostos demonstram uma dureza que, muitas vezes, não há em seus corações.
Sim, filha, eles o tem. São corações grandes e vermelhos e pulsantes... mas eles o escondem. O escondem do mundo, pois sabem que esse é seu único ponto fraco. Eles o mantém afastado das margens de seus corpos... abaixo de suas armaduras, de suas vestes, de sua pele, músculos... eles o guardam dentro da própria alma. Muitas vezes, guardam-no tão internamente, que esquecem que o tem. Lá dentro, eles preservam seus maiores tesouros. Por isso, também, precisam mantê-lo a salvo, para que seus adversários não o encontrem e não vejam o que há dentro dele. Se o encontram, execram-no. Mutilam o guerreiro pelo prazer do sofrimento.

Guerreiros não podem amar, filha. Porque se o fazem, perdem sua capacidade de lutar. Não por esquecerem-se de quem são e do que são feitos, mas porque baixam suas guardas e tornam-se vulneráveis. Toda horda de inimigos, então, aproveita-se de seu infortúnio para atacá-lo. Quando um guerreiro ama, ele expõe seu coração. E quando o faz, entrega às mãos do mundo a única arma capaz de vencê-los.

Mas o mais incrível nessa história, minha filha, é que quando um guerreiro ama... ele simplesmente cansou-se de ser um guerreiro. Pois que estes não dariam a chance de serem vencidos. Mas ele, ele sim. Ele quer tornar-se personagem de conto de fadas. Despe-se de suas armaduras, deixa cair as suas armas... e implora ao seu Deus que o torne príncipe ou princesa. Quando ele ama... ele entrega, de suas próprias mãos, o seu coração, o seu grande trunfo. Ele sabe que perdeu a batalha e que só resta um caminho, pois não há retorno: ele será, invariavelmente, destruído. E sabe de uma coisa? Eles esperam que o destruam, pois não querem mais aprender a lutar. Querem apenas o fim. De tudo. Se ele tira seu coração das profundezas da alma e o entrega... é porque sabe que não o terá de volta.

Por isso, filha, existem contos de fadas. Mas só para quem é, de fato, príncipe ou princesa".

domingo, 25 de agosto de 2013

Guardião

Doce anjo de asas negras, por onde andaste?
Há tanto que não o via! Tu, que a mim sempre acompanhava, soberano por sobre tudo e todos, pairando por entre o mar e o ar... sumiste!
Por que me abandonas? Não vês que tua companhia me faz falta? 
Tão acostumada estou com tua sombra, com tua presença imponente.
Teus olhos cinzas, refletidos em minha dor constante, e teu sorriso sarcástico que me despe... onde estão?
O que te aconteceu? O que são essas marcas? Que fizeram a ti?
Espera, tu estais... desaparecendo? Não, não podes fazer isso!

Tua pele se desfaz... caindo em camadas e pedaços de si mesmo, como folhas de árvore em pleno outono. De negras, tuas asas estão se tornando transparentes... e tuas vestes escuras e sombrias, clareando... 
Por que choras? Por que não me contas o que há contigo?
Não te escondas assim de mim... não podes falar?
Tua boca tão vermelha não espelha mais o teu esplendor. Estás amarrado pelos braços e pernas e tua cabeça pende sobre o ombro... por que não me deixas tocar-te?
Tantas noites, tu me levaste em teus braços para voar alto, tão alto... e agora, minhas mãos te machucam?

Surraram-te às raias da loucura. Profundos cortes marcam teu rosto e tuas costas. E não me permites nem a dádiva da duvida, pois que agora sei. Sei as razões pelas quais estais desaparecendo... estão levando-te de mim. Não é a ti que desejam castigar, mas a mim. Sabiam que, ao ferir-te assim, feriam muito mais a mim. Já não há mais nada. Entrega-te, meu querido e belo cúmplice. Vai-te, antes que seja tarde. Cura-te, salva tua existência e vai, acompanhar outro que mais mereça de ti. Deixa-me e liberta-te. Leva contigo a minha imagem, gravada em tuas asas, dos dias em que estivemos juntos, sendo um só, carne e alma. E assim, em ti, viverei para sempre.

terça-feira, 20 de agosto de 2013

Uno

Prólogo

Parada há poucos metros do meu destino, ainda tive tempo para pensar. Antes que todos os olhos se voltassem para mim. Antes que a música começasse a tocar.
Antes que meus passos me levassem aonde a vida tinha me preparado para estar. E eu só podia olhar para ti, o único que me enxergava. O único que sabia que eu estava ali.
Seus olhos procuravam-me, ansiosos, e mesmo sem que, de fato, pudesses me ver, sabias exatamente onde eu estava. E me deste o tempo necessário da reflexão.
Não temias, pois que sabia perfeitamente que eu não iria a lugar algum.
Enfim, eu havia chegado ao meu ponto final. Ao início do resto de minha, de nossas vidas.
O que quer que eu pensasse, fosse o que fosse, não me levaria dali. Nada me levaria de ti.
Tu sabias... tu sempre soubeste.


Por aquela pequena fração de segundos, refletida em teus olhos, flashs de luzes neon, banhadas de lembranças, espocavam em minha mente. Eu me tornava expectadora de mim mesma.
Havia sido uma trajetória de muitas curvas. Caminhos sinuosos, tortos, com seus grandes penhascos ladeando as margens... perdi as contas de quantas vezes debrucei-me sobre as pedras e fitei a escuridão abaixo de meus pés. Quantas vezes quis ser levada por aquela correnteza, feita de vento e brumas, apenas para saber se, ao tocar o solo, doeria mais. Mas eu sabia, não havia fundo naquele poço.
E eu simplesmente não poderia conhecer o fim.

Seguindo por essa estrada, personagens aos montes, eu conheci. Incógnitas e máscaras, pequenos flocos de neve que insistiam em existir em meio ao lamaçal.
Anjos e demônios dançavam e guerreavam a minha volta. Acompanhei os passos de ambos, ora intrigada pelas plumas das asas, ora instigada pela audácia do impróprio.
Coragem e covardia, medo e força, eu fui a controvérsia que não queria ser. Mas se o amor salva, aquele também me salvou. Pelas mãos pequenas, enrugadas e tão carregadas de vida e de história. Por um coração que confiava no meu, que havia se escondido por entre as costelas e prometera jamais sair.

Retornando ao seio cuja essência me pertence, um novo campo de batalha assim se fez. Soldados e canhões estrategicamente posicionados e prontos para o ataque. Iminente. Bombas, tiros, sangue.
Ah, quanta luta! E quando eu pensava ser vítima de um novo abandono, eis que o guerreiro de todas as peleias, por meio de bravos combatentes, veio em meu auxílio e, assim, resgatou-me.
Novas cicatrizes formaram-se e marcaram minha pele.
Profundas marcas, as quais, com orgulho, conservei.

A tempestade, enfim, cessou. Dias límpidos de sol e luz me foram prometidos. Belos cenários de vida comum, quando a gente brinca de ser feliz e pleno. Tantas vírgulas nas páginas dessa história!
Uma fuga, um lampejo de esperança, um tropeço. Uma luz que se apaga, uma parte que morre. O inesperado que se torna real.
A dor da perda de si mesmo. A vergonha, o nojo, a repulsa, o asco.
Ódio, indignação, negação. Desejos escusos que mancham a alma.

O ressurgimento. Mais um recomeço.
Às mãos do Pai, e somente Dele, dobrei meus joelhos e me coloquei de pé.
Em algum lugar, de alguma forma, tudo aquilo, cedo ou tarde, iria terminar. Mas alguma coisa aconteceu. Tocada diretamente pelo coração do Criador, eis que me surge uma outra vida.
Meu coração passou a bater fora do meu corpo, em outro peito.
Por essa dádiva, eu teria que renovar todas as forças. Ressurgir.

Entreguei-me a missão de ser alguém para outro alguém. Esqueci de ser eu mesma.
Juntei todos os meus anseios, sonhos, perspectivas e guardei.
Pandora, que havia esvaziado sua caixa de desgraças, agora as enchia com os restos do melhor de si.
Um dia, ao líder dos Arcanjos, presentearia.

Mas a força do reverso não podia deixar-me só.
Eras tu... eras tu.
Era o mundo conspirando para que o destino se cumprisse.
Minha falta de sorte, velha conhecida, é claro, não deu-me folga. Apagou-me as lembranças. Mas não levou-te o rosto.
Não era a hora.
Perdida, buscando reencontrar-me e em desespero, só existi, dia após dia, em uma vida que não era minha.

Invadiste meu espaço. Hábil jogador, meu doce e louco vampiro.
Meu cavaleiro de armadura prateada. Meu herói e meu salvador.
Meu menino lindo. Meu cúmplice, meu sorriso sem retorno. Meu namorinho de portão.

Tu me procuraste. A mim!
Em meio a todos os abismos, florestas e sombras.
Brincamos de esconder, sem que ninguém pudesse nos encontrar.
Que tenho eu de especial?
Tenho a ti, e isso torna-me especial. Uma caixa que guarda precioso tesouro. De novo. Pandora.
Tu te mantiveste firme, não desistiu. A vida te fez mais corajoso do que eu, sequer, pudesse imaginar.


O primeiro de todos os capítulos

Volto a realidade quando o vento toca o meu rosto, fazendo cócegas, como fadas.
Meu vestido, leve e claro, baila por entre minhas pernas. As flores, em meu cabelo solto, exalam um perfume que nunca senti.
Abro bem os meus olhos. É chegada a hora.
Uma vida inteira de espera, sem saber onde iria chegar.
Mas nada disso precisava fazer algum sentido. Não mais.

Sinto a areia sob meus pés descalços... faz-se um lindo dia de verão, a brisa amena sacode as folhas das árvores, que emanam uma melodia silenciosa.
Tudo a minha volta parece sorrir. Afundo meus pés na areia, sem me importar com nada. Preciso enraizar-me ali, tornar-me parte da natureza.
Talvez, só assim eu consiga agradecê-la por tudo isso.

As cadeiras, simples, estão dispostas de cada um dos lados do caminho que me leva até você.
Levanto meu rosto e ando, devagar.
Aquele é o meu momento. O nosso momento.
A linda canção de nós dois corta a atmosfera como um beijo roubado.
Ao primeiro passo, eu vejo você. Nossos olhos se encontram e, eu sei, poderia parar de respirar e, ainda assim, sentir-me mais viva do que nunca.
És o meu ar, o meu mundo, a minha razão de continuar.

Tão lindo como o pôr-do-sol que tanto amas.
Tu estás todo de branco, límpido e alvo, contrastando com a tua pele morena, tentadora, perfeita.
A camisa, muito fina e de mangas longas, envolve teu corpo e marca teu peito esculpido. Deixaste o último botão aberto, porque és meu menino levado.
A calça lhe cai perfeitamente à cintura, terminando em teus pés, meus guias, também descalços.
A meu pedido, teu rosto mantém a aspereza selvagem dos pelos de tua barba. Que me importam as conveniências, eu te amei assim desde sempre.
Jamais vi tamanho brilho como em teus olhos, nesse momento. O sol se deitaria aos teus pés e recolheria-se a devida insignificância.

Chego a ti. Toco teu rosto com meus dedos e recosta-te em minha mão. Não há outro lugar, na face desse e de outros planetas, onde eu desejaria estar.
Abres teu sorriso mais gracioso, aquele que faz-me apaixonar por ti todos os dias. E eu quero que o mundo pare de girar, apenas para que eu possa ver-te assim, para sempre.
Mas o nosso "para sempre" fará jus ao seu significado.
Entrelaçamos nossas mãos e, ali, diante do mar, do infinito, olhando nos olhos um do outro, unimos, por mais uma existência, nossas almas e nossos corpos.
Trocando as palavras de nosso próprio repertório, tornamo-nos um.
Voltamos a ser um.
Terminamos o nosso quebra-cabeça.

Toco meus lábios nos teus, selando, nesse beijo, a nossa promessa.
"Nunca me deixe".
Só enquanto eu respirar.
E também depois disso.

Do pouco que muito te digo

Eu o amo por quem tu és. Eu o amo pelo que tu te tornaste e pelo que me faz ser.
Amo-te menino e homem. Amo teu jeito de segurar os lábios com os dentes e como fecha os olhos, balançando a cabeça, quando cantas.
Amo sua maneira de jogar a cabeça para trás, quando está sorrindo, e como tua boca se desenha em traços fortes quando digo uma fofura qualquer.
Amo quando estreitas os olhos se dizemos alguma intimidade. Amo a firmeza do teu olhar, fixo em mim, mesmo estando, ainda, distante.
Amo a tua desenvoltura, tua ironia, teu sarcasmo e a tua falta de pudores.
Amo a tua perseverança e a tua paciência comigo.

Amo a sua delicadeza. Seu sotaque manso e o fato de que invertes a ordem das frases curtas, "sabe não?"
Tua voz se afina quando fazes isso, e eu o amo então.
Amo acordar com uma mensagem sua ou com a tua voz melódica, doce, cantando qualquer gracinha.
Amo ouvir tuas histórias de mocinho e de bandido. A tua confiança em mim.
Amo passar horas ao telefone contigo, mesmo que eu odeie falar ao telefone, de fato.

Amo ter me despido de tantos temores, barreiras e amarras, tudo por ti.
Amo a pessoa que me torno ao teu lado. Amo que tenhas sido você a me descobrir assim.
Eu te amo por tudo que estás fazendo por mim, por si, por nós. Por acreditar.

Não quero te completar, és inteiro por si só. Quero te transbordar.
Que tenhas a mais tudo de bom que vive em ti.
Vou cuidar de ti e de mim. "Eu desistiria da eternidade, apenas para te tocar".
Se existe um outro paraíso que não seja ao teu lado, então não deverias ser chamado assim.
O meu amor vai te proteger. A minha fé vai te resguardar. Eu não vou te perder.

Como eu já disse a você, não tenho mais o que a Deus pedir.
Elevo meus pensamentos a Ele e somente agradeço.
Por você existir. Por ser meu. Por eu ser tua.
Luz dos meus dias, meu grande e eterno campeão.
"Seria mais fácil fazer como todo mundo faz".
Mas nós não somos assim. Somos mais, muito mais.
"Somos mais do que mil: somos um".

Eu te amo, vida. Ésse dois.