sábado, 7 de dezembro de 2013

"Desquerendo-te"

Tudo que eu quero, nesse momento, é não te querer. Nunca quis tanto uma coisa nessa vida. Eu quero não mais chorar pensando em ti. Não quero mais que tu sejas meu último pensamento antes de dormir e muito menos o primeiro, ao acordar.
Eu quero sentar no sofá e que tu te sentes do outro lado. Não quero ter que encostar-me em ti. Quero trancar a porta do banheiro na hora do meu banho. Quero deitar-me pra dormir e ficar do meu lado da cama. Ler meu livro em silêncio enquanto tu assistes um dos teus vídeos engraçados na internet. E depois virar de lado e dormir tranquila, sem precisar que teus braços envolvam-me a noite inteira. Eu quero levantar-me e que tu não estejas mais ao meu lado, que já tenhas saído para trabalhar e feito teu próprio café. Não quero que tenhas que me ligar a cada hora do dia só pra saber como eu estou e o que fiz até aquele momento.
Eu quero sair para fazer compras e deixar-te em casa, cuidando da bagunça. Quero sair do trabalho e que tu não estejas me esperando na porta. Que eu não tenha que buscar-te na saída da faculdade. Quero sair às sextas-feiras com as minhas amigas e que nossos assuntos nada tenham a ver contigo.
Tudo que eu mais quero, nesse momento, é não te querer dessa maneira. Com esse desespero... como se fosse a última vez, como se eu corresse o risco de jamais ver-te novamente. Como se cada minuto tivesse que durar um dia inteiro.

E eu quero tudo isso simplesmente porque, quando eu me sentir assim, significa que tu estarás ao meu lado em definitivo. Sem mais despedidas. E que eu poderei despir-me dessa angústia, dessa pressa, dessa agonia. Pois saberei que, se eu perder a chance de um beijo pela manhã, eu poderei roubá-lo a tarde. Que se tu não me abraçares a noite, eu o abraçarei de manhã e nos amaremos antes do café. E não precisaremos fazer isso todos os dias, pois teremos todos os outros e os que quisermos. Não quero mais precisar de ti para respirar, pois quero que sejas meu próprio ar. Eu quero sentir-me assim porque o amo demais. Pois só assim saberei que és meu para sempre.

segunda-feira, 21 de outubro de 2013

Canhões e flores

Nós somos gladiadores e essa é a nossa arena de sonhos.
Oponentes que lutam do mesmo lado, pelo mesmo prêmio.
Nessa luta omissa, em nossos golpes sutis, somos mais autodefesa que vontade de atacar. Ferimos, sim, mas a intenção nem de longe significa um anseio de machucar. É mais como uma maneira de mostrar "quem pode mais". Um jeito démodé de vestir a armadura da indiferença quando o corpo está, de fato, encharcado de insegurança. Cada célula estremece, tal como se uma agulha muito fina penetrasse no mais profundo do peito e espetasse cada milímetro do ego e do orgulho. Juramos a nós mesmos não nos importar. Mas é em vão e bem sabemos disso. Cresce a necessidade de autoafirmação, só para mascarar a adrenalina correndo nas veias, exalando pelos poros uma sinfonia, aos berros, de indignação.
Um apega-se à liberdade. O outro, ao cárcere. E nessa batalha, nenhum dos lados obtém vantagem. Estampamos sorrisos nos rostos bem treinados, erguemos o corpo, em reles tentativa de provar uma imponência que não existe. Usamos o cotidiano como arma. Mas os elmos dourados que nos cobrem a face tão pesadamente, em nada impedem nossos olhos de reclamar os direitos da alma. A mesma alma, fragmentada apenas, nesse pequeno espaço infinito de tempo.

E a noite, quando despimo-nos de toda essa parafernália, podemos, enfim, dar vazão a tudo do que somos feitos. Longe de nosso cenário compartilhado, quando livres dos escudos que carregamos, os corpos pesam mais que chumbo. Porque de toda essa nossa guerra muda, só o que queremos ainda silenciar são os gritos ensurdecedores que clamam um pelo outro. Calar a sua boca com a minha boca e deixar extravasar todo esse ódio pelo infortúnio do destino no calor e no suor de nosso desejo doentio e louco. Amamos nos odiar, odiamos nos amar. De nossos imensos canhões de ferro, só flores atiramos.

sexta-feira, 18 de outubro de 2013

Devora-te a ti mesmo

Caros, sejam bem-vindos. Essa noite, eu serei seu Maître. 
Por favor, deixem-me pegar vossos casacos, restos de alguma coisa morta, verdadeiro primor. Sentem-se e apreciem o banquete, livres de quaisquer preocupações com o bom senso, com a vergonha, com a consideração ao próximo. Aqui, não lidamos com isso, somos famosos por nossa excelente capacidade de ignorar o que há de valoroso. Nossos ingredientes estão, unicamente, baseados em toda horda inútil de partes alheias sem a menor utilidade, que não seja saciá-los. Sintam-se a vontade.
Gostariam de provar um de nossos deliciosos vinhos? Cálices de sangue fresco, retirado ainda agora da jugular pulsante de um andarilho qualquer. Um desses reles seres que rastejam até nossa majestosa porta, intencionados em mudar-nos o cardápio. Mas não nos tomem por impiedosos, não. Demos-lhe, afinal, o devido e digno abate, livrando-o dessa existência emocional pagã e sem graça.
Como entrada, temos iguaria inigualável: língua. Calamos todo aquele que teima em imprimir-nos qualquer tipo de piedade. Limitamos sua capacidade de falar impropérios sentimentalistas, tais como compaixão e discernimento. Esse tipo de língua só cabe bem na boca de quem as come, jamais de quem as utiliza. Perda de tempo.
Como prato principal, gostaríamos de apresentar-lhe a nossa especialidade: miolos. Convenhamos, amantíssimos convidados, para que precisam dele? Pois se jamais fazem uso da razão! Criaturinhas medíocres que só fazem uso do... Valha-me! Quase estraguei o nosso grand finale!
E eis que a menina de nossos olhos ficou para o final, ilustres amigos. Convidamos, excelentíssimos, para apreciar o que há de mais doce ao paladar. Aqui, nessa badeja de ouro, coloco às vossas graças o motivo de nossa inalcançável fama: um delicioso e totalmente puro e íntegro coração. Músculo imperfeito e intrigante. Permitimo-nos a audácia de servi-lo inteiro, sem nem ao menos tocá-lo, salvo para dispô-lo na bandeja. Embora seu aspecto não seja dos melhores, asseguro-lhes que o sabor... não há comparações. Os temperos que não utilizamos naturalmente, tais como gratidão, compreensão, decência, a raríssima consideração e o quase extinto amor, todos eles estão aí presentes. E aqui, é só para isso que servem. Para serem devorados por vossas senhorias, seres de alta extirpe e nenhuma gota de valores e princípios, cujo próprio coração vive imerso em máscara puritana e encharcada de mentira, hipocrisia e ilusão.
Servir bem para servir sempre, essa é a nossa máxima.
Desfrutem de seu banquete! Bom apetite, agradecemos a preferência.
Nossa intenção é agradar.

quinta-feira, 3 de outubro de 2013

Contos de fadas

“- Mãe... existem mesmo contos de fadas?

Existem, filha. Mas para que eles sejam reais, você precisa ser um príncipe ou uma princesa.
Precisa nascer em um castelo de sonhos... ser uma menina doce, pura e bela... conservar valores de bondade suprema... jamais cultivar em teu coração sentimentos negativos, jamais revidar aos que te fizerem sofrer, devolver amor à ódio, sorrisos à lagrimas e flores à pedras.

- E se a gente não nasce príncipe e princesa, mãe? Podemos nos tornar um?

Não, filha. Quem não o nasce, torna-se um lutador.
Aos guerreiros, não é dada chance dos contos. Guerreiros são forjados em suor, sangue, lágrimas e lama. Não são belos e nem dóceis. Sua pele é espessa e suas mãos, cheias de calos, grossas. Carregam em si as marcas de muitas lutas, cicatrizes profundas de cada amanhecer.

Aos guerreiros, não sobram amores. Para eles, existem os inimigos, os aliados, os parceiros de batalha. Vivem em campos vastos, imensos e vazios. A solidão lhes faz companhia. Desde cedo, precisam aprender a se bastar. Se assim não for, morrem. Morrem por entregarem-se, por desistirem... morrem de dor. A dor de jamais poder pertencer a ninguém.

Seus rostos demonstram uma dureza que, muitas vezes, não há em seus corações.
Sim, filha, eles o tem. São corações grandes e vermelhos e pulsantes... mas eles o escondem. O escondem do mundo, pois sabem que esse é seu único ponto fraco. Eles o mantém afastado das margens de seus corpos... abaixo de suas armaduras, de suas vestes, de sua pele, músculos... eles o guardam dentro da própria alma. Muitas vezes, guardam-no tão internamente, que esquecem que o tem. Lá dentro, eles preservam seus maiores tesouros. Por isso, também, precisam mantê-lo a salvo, para que seus adversários não o encontrem e não vejam o que há dentro dele. Se o encontram, execram-no. Mutilam o guerreiro pelo prazer do sofrimento.

Guerreiros não podem amar, filha. Porque se o fazem, perdem sua capacidade de lutar. Não por esquecerem-se de quem são e do que são feitos, mas porque baixam suas guardas e tornam-se vulneráveis. Toda horda de inimigos, então, aproveita-se de seu infortúnio para atacá-lo. Quando um guerreiro ama, ele expõe seu coração. E quando o faz, entrega às mãos do mundo a única arma capaz de vencê-los.

Mas o mais incrível nessa história, minha filha, é que quando um guerreiro ama... ele simplesmente cansou-se de ser um guerreiro. Pois que estes não dariam a chance de serem vencidos. Mas ele, ele sim. Ele quer tornar-se personagem de conto de fadas. Despe-se de suas armaduras, deixa cair as suas armas... e implora ao seu Deus que o torne príncipe ou princesa. Quando ele ama... ele entrega, de suas próprias mãos, o seu coração, o seu grande trunfo. Ele sabe que perdeu a batalha e que só resta um caminho, pois não há retorno: ele será, invariavelmente, destruído. E sabe de uma coisa? Eles esperam que o destruam, pois não querem mais aprender a lutar. Querem apenas o fim. De tudo. Se ele tira seu coração das profundezas da alma e o entrega... é porque sabe que não o terá de volta.

Por isso, filha, existem contos de fadas. Mas só para quem é, de fato, príncipe ou princesa".

domingo, 25 de agosto de 2013

Guardião

Doce anjo de asas negras, por onde andaste?
Há tanto que não o via! Tu, que a mim sempre acompanhava, soberano por sobre tudo e todos, pairando por entre o mar e o ar... sumiste!
Por que me abandonas? Não vês que tua companhia me faz falta? 
Tão acostumada estou com tua sombra, com tua presença imponente.
Teus olhos cinzas, refletidos em minha dor constante, e teu sorriso sarcástico que me despe... onde estão?
O que te aconteceu? O que são essas marcas? Que fizeram a ti?
Espera, tu estais... desaparecendo? Não, não podes fazer isso!

Tua pele se desfaz... caindo em camadas e pedaços de si mesmo, como folhas de árvore em pleno outono. De negras, tuas asas estão se tornando transparentes... e tuas vestes escuras e sombrias, clareando... 
Por que choras? Por que não me contas o que há contigo?
Não te escondas assim de mim... não podes falar?
Tua boca tão vermelha não espelha mais o teu esplendor. Estás amarrado pelos braços e pernas e tua cabeça pende sobre o ombro... por que não me deixas tocar-te?
Tantas noites, tu me levaste em teus braços para voar alto, tão alto... e agora, minhas mãos te machucam?

Surraram-te às raias da loucura. Profundos cortes marcam teu rosto e tuas costas. E não me permites nem a dádiva da duvida, pois que agora sei. Sei as razões pelas quais estais desaparecendo... estão levando-te de mim. Não é a ti que desejam castigar, mas a mim. Sabiam que, ao ferir-te assim, feriam muito mais a mim. Já não há mais nada. Entrega-te, meu querido e belo cúmplice. Vai-te, antes que seja tarde. Cura-te, salva tua existência e vai, acompanhar outro que mais mereça de ti. Deixa-me e liberta-te. Leva contigo a minha imagem, gravada em tuas asas, dos dias em que estivemos juntos, sendo um só, carne e alma. E assim, em ti, viverei para sempre.

terça-feira, 20 de agosto de 2013

Uno

Prólogo

Parada há poucos metros do meu destino, ainda tive tempo para pensar. Antes que todos os olhos se voltassem para mim. Antes que a música começasse a tocar.
Antes que meus passos me levassem aonde a vida tinha me preparado para estar. E eu só podia olhar para ti, o único que me enxergava. O único que sabia que eu estava ali.
Seus olhos procuravam-me, ansiosos, e mesmo sem que, de fato, pudesses me ver, sabias exatamente onde eu estava. E me deste o tempo necessário da reflexão.
Não temias, pois que sabia perfeitamente que eu não iria a lugar algum.
Enfim, eu havia chegado ao meu ponto final. Ao início do resto de minha, de nossas vidas.
O que quer que eu pensasse, fosse o que fosse, não me levaria dali. Nada me levaria de ti.
Tu sabias... tu sempre soubeste.


Por aquela pequena fração de segundos, refletida em teus olhos, flashs de luzes neon, banhadas de lembranças, espocavam em minha mente. Eu me tornava expectadora de mim mesma.
Havia sido uma trajetória de muitas curvas. Caminhos sinuosos, tortos, com seus grandes penhascos ladeando as margens... perdi as contas de quantas vezes debrucei-me sobre as pedras e fitei a escuridão abaixo de meus pés. Quantas vezes quis ser levada por aquela correnteza, feita de vento e brumas, apenas para saber se, ao tocar o solo, doeria mais. Mas eu sabia, não havia fundo naquele poço.
E eu simplesmente não poderia conhecer o fim.

Seguindo por essa estrada, personagens aos montes, eu conheci. Incógnitas e máscaras, pequenos flocos de neve que insistiam em existir em meio ao lamaçal.
Anjos e demônios dançavam e guerreavam a minha volta. Acompanhei os passos de ambos, ora intrigada pelas plumas das asas, ora instigada pela audácia do impróprio.
Coragem e covardia, medo e força, eu fui a controvérsia que não queria ser. Mas se o amor salva, aquele também me salvou. Pelas mãos pequenas, enrugadas e tão carregadas de vida e de história. Por um coração que confiava no meu, que havia se escondido por entre as costelas e prometera jamais sair.

Retornando ao seio cuja essência me pertence, um novo campo de batalha assim se fez. Soldados e canhões estrategicamente posicionados e prontos para o ataque. Iminente. Bombas, tiros, sangue.
Ah, quanta luta! E quando eu pensava ser vítima de um novo abandono, eis que o guerreiro de todas as peleias, por meio de bravos combatentes, veio em meu auxílio e, assim, resgatou-me.
Novas cicatrizes formaram-se e marcaram minha pele.
Profundas marcas, as quais, com orgulho, conservei.

A tempestade, enfim, cessou. Dias límpidos de sol e luz me foram prometidos. Belos cenários de vida comum, quando a gente brinca de ser feliz e pleno. Tantas vírgulas nas páginas dessa história!
Uma fuga, um lampejo de esperança, um tropeço. Uma luz que se apaga, uma parte que morre. O inesperado que se torna real.
A dor da perda de si mesmo. A vergonha, o nojo, a repulsa, o asco.
Ódio, indignação, negação. Desejos escusos que mancham a alma.

O ressurgimento. Mais um recomeço.
Às mãos do Pai, e somente Dele, dobrei meus joelhos e me coloquei de pé.
Em algum lugar, de alguma forma, tudo aquilo, cedo ou tarde, iria terminar. Mas alguma coisa aconteceu. Tocada diretamente pelo coração do Criador, eis que me surge uma outra vida.
Meu coração passou a bater fora do meu corpo, em outro peito.
Por essa dádiva, eu teria que renovar todas as forças. Ressurgir.

Entreguei-me a missão de ser alguém para outro alguém. Esqueci de ser eu mesma.
Juntei todos os meus anseios, sonhos, perspectivas e guardei.
Pandora, que havia esvaziado sua caixa de desgraças, agora as enchia com os restos do melhor de si.
Um dia, ao líder dos Arcanjos, presentearia.

Mas a força do reverso não podia deixar-me só.
Eras tu... eras tu.
Era o mundo conspirando para que o destino se cumprisse.
Minha falta de sorte, velha conhecida, é claro, não deu-me folga. Apagou-me as lembranças. Mas não levou-te o rosto.
Não era a hora.
Perdida, buscando reencontrar-me e em desespero, só existi, dia após dia, em uma vida que não era minha.

Invadiste meu espaço. Hábil jogador, meu doce e louco vampiro.
Meu cavaleiro de armadura prateada. Meu herói e meu salvador.
Meu menino lindo. Meu cúmplice, meu sorriso sem retorno. Meu namorinho de portão.

Tu me procuraste. A mim!
Em meio a todos os abismos, florestas e sombras.
Brincamos de esconder, sem que ninguém pudesse nos encontrar.
Que tenho eu de especial?
Tenho a ti, e isso torna-me especial. Uma caixa que guarda precioso tesouro. De novo. Pandora.
Tu te mantiveste firme, não desistiu. A vida te fez mais corajoso do que eu, sequer, pudesse imaginar.


O primeiro de todos os capítulos

Volto a realidade quando o vento toca o meu rosto, fazendo cócegas, como fadas.
Meu vestido, leve e claro, baila por entre minhas pernas. As flores, em meu cabelo solto, exalam um perfume que nunca senti.
Abro bem os meus olhos. É chegada a hora.
Uma vida inteira de espera, sem saber onde iria chegar.
Mas nada disso precisava fazer algum sentido. Não mais.

Sinto a areia sob meus pés descalços... faz-se um lindo dia de verão, a brisa amena sacode as folhas das árvores, que emanam uma melodia silenciosa.
Tudo a minha volta parece sorrir. Afundo meus pés na areia, sem me importar com nada. Preciso enraizar-me ali, tornar-me parte da natureza.
Talvez, só assim eu consiga agradecê-la por tudo isso.

As cadeiras, simples, estão dispostas de cada um dos lados do caminho que me leva até você.
Levanto meu rosto e ando, devagar.
Aquele é o meu momento. O nosso momento.
A linda canção de nós dois corta a atmosfera como um beijo roubado.
Ao primeiro passo, eu vejo você. Nossos olhos se encontram e, eu sei, poderia parar de respirar e, ainda assim, sentir-me mais viva do que nunca.
És o meu ar, o meu mundo, a minha razão de continuar.

Tão lindo como o pôr-do-sol que tanto amas.
Tu estás todo de branco, límpido e alvo, contrastando com a tua pele morena, tentadora, perfeita.
A camisa, muito fina e de mangas longas, envolve teu corpo e marca teu peito esculpido. Deixaste o último botão aberto, porque és meu menino levado.
A calça lhe cai perfeitamente à cintura, terminando em teus pés, meus guias, também descalços.
A meu pedido, teu rosto mantém a aspereza selvagem dos pelos de tua barba. Que me importam as conveniências, eu te amei assim desde sempre.
Jamais vi tamanho brilho como em teus olhos, nesse momento. O sol se deitaria aos teus pés e recolheria-se a devida insignificância.

Chego a ti. Toco teu rosto com meus dedos e recosta-te em minha mão. Não há outro lugar, na face desse e de outros planetas, onde eu desejaria estar.
Abres teu sorriso mais gracioso, aquele que faz-me apaixonar por ti todos os dias. E eu quero que o mundo pare de girar, apenas para que eu possa ver-te assim, para sempre.
Mas o nosso "para sempre" fará jus ao seu significado.
Entrelaçamos nossas mãos e, ali, diante do mar, do infinito, olhando nos olhos um do outro, unimos, por mais uma existência, nossas almas e nossos corpos.
Trocando as palavras de nosso próprio repertório, tornamo-nos um.
Voltamos a ser um.
Terminamos o nosso quebra-cabeça.

Toco meus lábios nos teus, selando, nesse beijo, a nossa promessa.
"Nunca me deixe".
Só enquanto eu respirar.
E também depois disso.

Do pouco que muito te digo

Eu o amo por quem tu és. Eu o amo pelo que tu te tornaste e pelo que me faz ser.
Amo-te menino e homem. Amo teu jeito de segurar os lábios com os dentes e como fecha os olhos, balançando a cabeça, quando cantas.
Amo sua maneira de jogar a cabeça para trás, quando está sorrindo, e como tua boca se desenha em traços fortes quando digo uma fofura qualquer.
Amo quando estreitas os olhos se dizemos alguma intimidade. Amo a firmeza do teu olhar, fixo em mim, mesmo estando, ainda, distante.
Amo a tua desenvoltura, tua ironia, teu sarcasmo e a tua falta de pudores.
Amo a tua perseverança e a tua paciência comigo.

Amo a sua delicadeza. Seu sotaque manso e o fato de que invertes a ordem das frases curtas, "sabe não?"
Tua voz se afina quando fazes isso, e eu o amo então.
Amo acordar com uma mensagem sua ou com a tua voz melódica, doce, cantando qualquer gracinha.
Amo ouvir tuas histórias de mocinho e de bandido. A tua confiança em mim.
Amo passar horas ao telefone contigo, mesmo que eu odeie falar ao telefone, de fato.

Amo ter me despido de tantos temores, barreiras e amarras, tudo por ti.
Amo a pessoa que me torno ao teu lado. Amo que tenhas sido você a me descobrir assim.
Eu te amo por tudo que estás fazendo por mim, por si, por nós. Por acreditar.

Não quero te completar, és inteiro por si só. Quero te transbordar.
Que tenhas a mais tudo de bom que vive em ti.
Vou cuidar de ti e de mim. "Eu desistiria da eternidade, apenas para te tocar".
Se existe um outro paraíso que não seja ao teu lado, então não deverias ser chamado assim.
O meu amor vai te proteger. A minha fé vai te resguardar. Eu não vou te perder.

Como eu já disse a você, não tenho mais o que a Deus pedir.
Elevo meus pensamentos a Ele e somente agradeço.
Por você existir. Por ser meu. Por eu ser tua.
Luz dos meus dias, meu grande e eterno campeão.
"Seria mais fácil fazer como todo mundo faz".
Mas nós não somos assim. Somos mais, muito mais.
"Somos mais do que mil: somos um".

Eu te amo, vida. Ésse dois.

sexta-feira, 9 de agosto de 2013

A sombra, a luz e a loucura

Caminhava pela noite densa a passos largos. Pensamentos espocavam à velocidade da luz e de nada adiantavam suas vãs tentativas em refreá-los. O ar era tão pesado e áspero que cortava sua pele muito clara, marcando-a em fendas rasas. Imersa em sua própria sombra... suas asas, negras como seu coração parado, não serviam mais para voar. Apenas faziam peso nas costas. Mais um peso.

Não podia sofrer. Não porque não quisera, mas porque não fazia parte do que era. Não sabia. Criatura sórdida, cuja alma fora vendida e trocada pela promessa da eternidade. No início, achara a proposta tentadora. Mas ainda não conhecia o verdadeiro significado do que é o “para sempre”. Tempo demais, até para quem faz da magia a sua escolha. E passa a vida – e a morte, do corpo e do espírito - manuseando a si mesmo, como a um personagem, enclausurado em um palco cuja cortina jamais se fecha.

Mas não naquela noite. No céu, tantas estrelas que poderia perder-se no tempo e no espaço se olhasse fixamente. A lua, tão clara e brilhante e majestosa, era bela noiva, vestida de um branco imaculado e intocável, a espera de seu astro no altar do império celeste. A luz tornou-se tão intensa que ela não podia continuar ali. Queimava-lhe a carne como brasa, sentia que, antes que sua voz pudesse testemunhar um protesto, já estaria reduzida a cinzas.

Entretanto, havia algo que a prendia ali. Algo mais forte do que sua frieza, seu repúdio pela fragilidade das vidas que tão facilmente levava, sem pensar. Não sabia precisar o que era... o que a mantinha ali, com os olhos naquela tela, pintada pelas hábeis mãos do Criador de todas as coisas. Seria algo semelhante a sua magia? Às vezes, a sensação lhe parecia familiar... não, não era magia. Era loucura. Outro par de olhos seguia aquele mesmo cenário. E, como um imã invertido, que só atrai o que não presta, tanto quanto a si mesma e não o oposto, encontrava-se ali, daquela maneira, presa por fios invisíveis de puro magnetismo. Olhos opacos, perdidos e loucos, buscando o que também não sabia se queria.

Se pudesse (e soubesse, e talvez quisesse) aconselhar, lhe diria: afasta-te, faça-o enquanto dou-te a chance. Antes que meus tentáculos, feitos de dor e horror, o prendam de forma irreversível e tu te tornes mais uma de minhas vítimas. Indefeso, incapaz, vivo apenas pelo curto espaço de satisfazer minha vontade, meu prazer mórbido.

Mas como implantar algum juízo e discernimento em uma mente que a sanidade desconhece? E para qual de seus tantos “eus” suplicar? De todos os de ti que existam nessa mente de ninguém, não há quem possa ouvir, tampouco compreender. Tu te entregas, de bom grado e com um sorriso demoníaco nos lábios largos, à escuridão de que sou feita.

Desisto de procurar lampejos de humanidade em minha própria consciência. Entro no labirinto da demência que queres impor. Abraço minha obscuridade e nem em teu último nível de auspício poderias me intimidar ou influenciar. A alucinação não me retém. Somente o delírio faz frente ao que uso de mais tenebroso. Não se pode dominar o que não há reflexos.

terça-feira, 25 de junho de 2013

Ode ao desencanto

Naquele espaço pequeno e escuro, só se via fumaça por todo lado. Um vapor quente e espesso, que fazia com que o ar se tornasse sufocante. Mas não para ela. Nua, deitada e submersa na banheira de porcelana, a água fervente parecia mais um iceberg, torturando ainda mais seu corpo cansado. A sensação que tinha era a de ter todos os ossos quebrados, tamanha dor em seu peito. Seus cabelos grudavam-se em torno do rosto, ombros e seios. Ela embalava a si mesma, abraçada aos joelhos enquanto a espuma desaparecia diante de seus olhos perdidos no tempo.
Era-lhe penoso, mas não podia evitar a viagem ao passado. Um passado que as vezes parecia distante demais e ao mesmo tempo tão próximo como se nem de passado pudesse ser chamado. Para o tempo real, só haviam dois meses. Dias em que, na maioria das vezes, a gente vive sem nem ver. Nem considera. Mas esse curto espaço de semanas se tornaram pesados demais para serem tão simplesmente ignorados na vida dela.
Abre seus olhos e está em outro lugar. Uma sequência de cenas, lugares, momentos, odores e sabores variados. Em uma fração de minutos, ela reviveu cada um deles: os primeiros olhares, as conversas, o primeiro beijo, os toques e a forma como sua pele reagia a ele e todo o calhamaço de palavras doces que ouvira, frases e colóquios e poesia, carregados de promessas subentendidas que faziam seu coração e seu cérebro entrarem na mais atroz das guerras: um, se armando com todo arsenal que lhe era possível alcançar; o outro, entregando até a roupa do corpo pra tornar-se ainda mais exposto. Visto a situação atual, faz-se desnecessário contar quem ganhou.
Vivenciados todos os momentos claros, ela estaciona sua mente naquele último dia. Aumenta seu volume interno e reconstitui todo aquele papo infeliz, coisa de quem não devia ter saído da cama. A boca fria e distante dele, enquanto proferia impropérios sem sentido... diria mesmo que era outra pessoa, não poderia haver outra explicação para tanta mudança. Mas o cheiro do seu corpo não deixava dúvidas, entrara pelas narinas dela como música na alma, da mesma forma desde o primeiro minuto em que o vira na vida, reduzindo todo o seu autocontrole e vergonha na cara a pó, fincando seus pés no solo e impedindo a ela que se agarrasse ao último fio de orgulho e amor próprio que ainda restasse e saísse dali, correndo, se resguardando de ouvir tanta porcaria sem razão, tanta contradição. Seu rosto, impassível, não tinha mais emoção, não demonstrava mais nada. Sentia preguiça e raiva daquela insegurança idiota dele, daqueles motivos superficiais e vagos, que nem de longe justificariam a sua atitude (ou a falta dela). "Em minha vida, não tem espaço pra você." Um tiro de canhão teria doido menos e surtido efeito mais positivo, já que não lhe daria tempo de pensar. Mas ele lhe dera. Todo tempo do mundo para pensar e viver com tudo isso.
Vários dias se passaram depois daquilo e ela não podia precisar quantas milhares de vezes parara para pensar e refletir, tentar entender o motivo. Lembrava de olhar profundamente em seus olhos e enxergar um lampejo de luz, aquele brilho que sempre vira quando ele olhava para ela... mas logo se perdia novamente, talvez forçando-se a não acreditar no que vira e fazer daquilo qualquer mínima ponta de esperança.
Calçando seu par de tênis surrado, ela vestiu seu moletom escuro, colocou os fones nos ouvidos e aumentou o volume até quase estourar os tímpanos. A música precisava ser mais alta que seus pensamentos. Muitos dias haviam passado e ela precisava livrar-se de tudo aquilo, livrar-se dele. Abriu a porta e a chuva caia torrencialmente. Porém, não se intimidou. Recebeu, de bom grado, cada gota gelada que caia sobre si, arrepiando os pelos de seu corpo de extremo a extremo. Sentiu-se acolhida: o céu chorava com ela.
Correu a passos largos por entre as ruas desertas, àquela hora não havia ninguém para testemunhar sua dor e sua indignação. Era livre! Só o mar lhe fazia companhia, com suas ondas arrebentando ferozes nas pedras, tão irritadas e chateadas quanto ela. A natureza a estava recebendo de braços abertos em toda sua fúria e sofrimento. Era lindo de se ver.
Ao chegar ao final do caminho, parou. Seus olhos a estavam traindo, aquela imagem que via ao longe não poderia ser real. Parou de correr e passou a andar, mantendo seu olhar fixo naquele foco, aquela silhueta. Quando estava há cerca de 10 metros, não havia mais como duvidar. Ele estava lá. Parado, olhando para ela, completamente molhado, com seus olhos semicerrados, respirando com dificuldade e a boca entreaberta. Ficaram longos e intermináveis minutos apenas se olhando, sem coragem de mexer um músculo sequer e perder aquela visão. Mas em um ímpeto de adrenalina que não sabia nem de onde saiu, suas pernas moveram-se sozinhas. E ela correu, correu e se atirou nos braços abertos dele. Agarraram-se como a um bote em meio a tormenta, única forma de salvação perante a morte iminente. Beijaram-se com tanta força e brutalidade que seus rostos tornaram-se um só, vermelhos e apertados um contra o outro. Ele tirou-a do chão e estreitou ainda mais seu corpo, como se não pudesse nunca mais viver sem ela, como se fosse evaporar e desaparecer no ar se não estivesse grudado a ela. Ficaram assim sem se importar com mais nada: o mundo poderia acabar, eles nem veriam ou se preocupariam com isso. Quando se soltaram, foi de uma vez. Não houve uma palavra... o único som vinha de suas respirações ofegantes. Ela virou-se, deu-lhe as costas e saiu. Caminhando, e não correndo. Não olhou para trás. Não sabe se ele continuou ali ou se também foi embora, não queria saber, seria ainda mais doloroso e, dessa vez, ela poderia não suportar.

Abriu os olhos. Da água, antes doce de seu banho, agora só restava o sabor salgado e amargo de suas lágrimas.

segunda-feira, 20 de maio de 2013

A mim

Me erra. Me deixa, me esquece, me lembra.
Me apaga, me inventa, me apavora.
Me cala, me ouve, me veja, me diz. 
Me mostra, me pega, me joga. 
Me abraça, me beija, me toca, me sente, me queira. Me tome.
Me liga, me escreve, me ensina, me visita, me persegue.
Me irrita, me afoga, me acalenta, me aborrece, me acalma.
Me busca, me segura, me perde, me procura, me acha. Me faça.
Me devolve, me vende, me compre.
Me aperta, me morde, me machuca, me marca, me acende.
Me tenha. Me leva.
Me mata, me ressuscita.
Me odeie, me ame.

Me ajuda... me socorre. Me salva.
Só não me iluda, não me engane e, acima de tudo: não me crie expectativas vãs.
E não me peça para parar o que você quer que eu continue.

domingo, 12 de maio de 2013

Pode levar pra casa?


Doce. Mais doce que caramelo, chocolate, bala de côco e céu azul. 
Doce e sútil. Doce e macio. 
Gosto de proteção, de segurança, de “deixa que eu te levo”. 
Doce como mel, que escorre da boca, desce pescoço abaixo e faz trilha no corpo. Quente e espesso. Avassalador, vendaval que passa e leva o que vê pela frente. Mas que toca o rosto de leve, uma brisa. Brisa que entra pelos poros, que envolve, que toma para si. Que arrepia cada pelo do corpo só de lembrar teu cheiro, agora impregnado em minha carne.
- De onde surgiste?

Arrancaste-me todos os pudores, despiu-me a armadura, tomaste minhas armas. Em um simples piscar de olhos, queres desvendar-me todos os mistérios. Tudo que me torna o que sou e como cheguei até aqui. Em uma fração de segundos, conheceste parte de minha caminhada, regada a passos largos, tropeços, quedas, curvas e muitas flores. Não sei como chegaste a tanto, não sei nem como chegaste a mim.
E daí se materializaram todos os meus desejos e guardaram em um pacote todo lindo e embrulhado para presente? 
Brinde. Não é? Mas o que foi que comprei, que não sei, que não vi e nem me lembro, que me trouxeste de brinde algo assim, tão valioso? Pouco me importa. Se me foi dado, troco o que quer que tenha comprado ou ganho ou encontrado, só por esse pacotinho de brinde. 
Minha caixa de Pandora.

Sem medo e sem pensar, abri. Mas nem de longe encontrei todos os infortúnios que promete a lenda. Tinha cheiro do que eu gosto, e veja bem que nem eu sabia mais do que gostava. A combinação perfeita. Tantas coisas que nem soube o que fazer com tudo... e tive medo de “gastar” tudo que tinha e acabar. Mas como saciar o que não tem limites?

Reservo-te a graça e glória do amanhã. 
Sem amarras que seguram e sem foices que podam. 
Reservo-te a ansiedade do próximo passo, da surpresa. 
Reservo-me. Para ti e para mim.
E assim, vou morar contigo dentro dessa caixa. 

Nela, encontrei a chave. Encontrei sinais e pontos. 
Meu ponto final. Meu ponto de partida. 

quarta-feira, 8 de maio de 2013

Desvenda-me

E de tanto esperar o momento certo, eis que tudo se dá no momento errado. Mas de tanto erro esperado, talvez seja cometido da maneira certa, sabe-se lá. Há tanta contradição quando não se atenta ao que se deve ou precisa fazer, quando se adia o inevitável.
Mas hoje, queria pedir-te que cale meus lamentos. Silencie meu tormento, acalenta meu pranto e sossega meu corpo, minha alma. Sacia essa dor latente que me corrói por dentro, esse medo que nem sei de que. Aperta minhas mãos entre as suas e sela minha boca com a tua leveza de ser. Agarra meus cabelos e leva-me ao teu mundo, onde a liberdade casa com o desejo de ser o que se quer e se pode ser.
Não me poupe nada, eu não quero a sua piedade e cuidado. Eu quero instinto, eu quero carne, sangue. Teste meus limites! Leva-me daqui em teus braços e me tome, mande e comande. Marca minha pele com o teu suor. Apaga meus pensamentos e que, nessa hora, tornemo-nos um nó, um só, pó.
E depois, se o mundo ruir, que meus lamentos se tornem a voz mais alta. Quero ser só tempo e vento, dentro de ti.

terça-feira, 7 de maio de 2013

Sem saída

Valha-me, Deus! Que meus gritos sejam feitos de silêncio, pois que se minha voz alcançar os patamares que deseja, não haverá pulmão que nos aguente!
Assim, Anita desperta de seu sono conturbado. A noite ainda aperta lá fora e ela corre pra verificar se a porta estava trancada. Pela milionésima vez. Trocara sua armadura cedo demais... sem grandes certezas se deveria abandonar a guerra, ceder ao adversário ou simplesmente o contrário, buscar reforços e arquitetar um contra-ataque que surtisse efeito.
A menina não sabia nada. Perdera até mesmo sua identidade, soterrada naqueles escombros de cinza e chumbo. Tanto tempo se passou e tanta coisa ela viu! O marasmo tornou-se velho companheiro, pois naqueles dias sem sol, apesar de toda parafernália que se juntou nos cantos, era só o que lhe restava. Funcionava assim: "entre mortos e feridos, salvaram-se todos". Porém, mal sabia ela (ou sabia e não se permitia admitir) que nem sempre "salvar-se" era o prêmio, o melhor. Ferir-se, sujar-se, talvez fosse disso que precisasse e o que tanto lhe fazia falta. Mas acostumou-se ao de sempre, ao que o mundo de sombras lhe conferia.
Não fora por falta de esforços de seus companheiros de batalha, diga-se de passagem, que Anita desistira de lutar. Entregou-se por covardia, por falta de incentivo maior e por medo. Não havia mais desculpas e ela não fazia mais questão de buscá-las, tampouco. Acordava no mesmo campo, com as mesmas vestes e as mesmas armas, enferrujadas e sem serventia. Quantas vezes fora carregada, nem sempre com muita maestria, para que não sucumbisse por uma bomba qualquer que (de bom grado, pensava, as vezes) que lhe caísse na cabeça. Só pensava em salvar seu coração, mesmo que isso lhe custasse os braços, pernas e entranhas, célula por célula. Só ele lhe importava e só por ele ainda fazia questão de sair do seu mundinho particular. Custara-lhe tanto tempo e tanto esforço, seu coraçãozinho tão vermelho, que não podia e nem iria entregá-lo de bandeja nas mãos de quem quer que fosse.
Mas um belo dia, quando, novamente, entregara-se ao fim da exaustão, esperando mais do mesmo, alguma coisa aconteceu. Decidiu testar até onde conseguiria caminhar - se é que ainda tinha essa alternativa. Vestiu-se, agarrou forte suas armas e saiu a campo. Àquela hora, tudo era silêncio e escuridão. Tudo quieto, como se nada acontecesse há mil séculos naquele lugar. Andou por vales e trilhas, viu corpos e fumaça. Esperava ouvir o som da agonia de um ou outro moribundo, mas nem isso. Caminhou tanto, mas tanto, que as pernas fraquejaram. Sentou no chão, pronta para estirar-se na relva verde, o cheiro da chuva que se anunciava entrando pleno em seus pulmões doloridos... e então, quando curva seu corpo, bate em uma enorme muralha. Parecia simplesmente impossível não ter visto aquele "mundo" de pedra ali, mas era assim que se deu. Já ia levantar-se e xingar, maldizer sua péssima ideia ao sair no meio da madrugada, mas quando endireitou-se e recostou as costas ali... algo mudou. Sua impressão inicial era de estar sendo abraçada por aquele monte de concreto. Quente, muito quente... macio e estranho e complicado.
Anita aconchegou-se mais e sentiu-se encaixar. As dores de sua alma e corpo pareciam amenizar, era quase como música. Pra quem fazia questão de tapar os ouvidos, achando-se surda pelo tempo, música era a expressão mais bonita de sua alma. Não sabia reconhecer, mas era doce, tão doce que podia provar o sabor do que não tinha paladar.
Agora, a menina encontrava-se na maior bifurcação de sua vida: virar-se e ir embora, de volta ao seu mundo, protegido por sua insegurança, porém seguro em panorâmica, ou tentar transpor aquela muralha, preparando-se para ver o que havia além dela. O novo era assustador, mas tentador demais, tudo ao mesmo tempo. Nunca antes ela tivera tanta dúvida sobre qual caminho seguir... nunca antes havia tanto a se ponderar como naquele momento. A guerra era difícil e cansativa, mas era a sua guerra. A batalha que ela mesma travara e de onde não saberia sair. Mas a curiosidade e a sede de "mais" lhe apertavam até a última gota de sangue.
Anita não sabia o que fazer e nem pra que lado seguir. Sabia, porém, que aquela muralha era apenas o primeiro degrau de sua alçada, de seu desejo. Queria mais, muito mais. Mas ainda precisava desprender-se e, nesse desprendimento, provar que tinha mais valor do que uma simples ambulante de madrugadas. Caminhadas não desfaziam seu caráter e nem maculavam o que sentia, mas a maneira com que dava cada passo sim, e era isso que deveria refletir. Mas ah... estava aflita como o inferno para ultrapassar aquele concreto quente. Não queria se encontrar, só queria se perder.