Nós somos gladiadores e essa é a nossa arena de sonhos.
Oponentes que lutam do mesmo lado, pelo mesmo prêmio.
Nessa luta omissa, em nossos golpes sutis, somos mais
autodefesa que vontade de atacar. Ferimos, sim, mas a intenção nem de longe significa
um anseio de machucar. É mais como uma maneira de mostrar "quem pode mais". Um
jeito démodé de vestir a armadura da indiferença quando o corpo está, de fato,
encharcado de insegurança. Cada célula estremece, tal como se uma agulha muito
fina penetrasse no mais profundo do peito e espetasse cada milímetro do ego e
do orgulho. Juramos a nós mesmos não nos importar. Mas é em vão e bem sabemos
disso. Cresce a necessidade de autoafirmação, só para mascarar a adrenalina
correndo nas veias, exalando pelos poros uma sinfonia, aos berros, de
indignação.
Um apega-se à liberdade. O outro, ao cárcere. E nessa batalha,
nenhum dos lados obtém vantagem. Estampamos sorrisos nos rostos bem
treinados, erguemos o corpo, em reles tentativa de provar uma imponência que não
existe. Usamos o cotidiano como arma. Mas os elmos dourados que nos cobrem a
face tão pesadamente, em nada impedem nossos olhos de reclamar os direitos da
alma. A mesma alma, fragmentada apenas, nesse pequeno espaço infinito de tempo.
E a noite, quando despimo-nos de toda essa parafernália, podemos,
enfim, dar vazão a tudo do que somos feitos. Longe de nosso cenário
compartilhado, quando livres dos escudos que carregamos, os corpos pesam mais
que chumbo. Porque de toda essa nossa guerra muda, só o que queremos ainda silenciar
são os gritos ensurdecedores que clamam um pelo outro. Calar a sua boca com a
minha boca e deixar extravasar todo esse ódio pelo infortúnio do destino no
calor e no suor de nosso desejo doentio e louco. Amamos nos odiar, odiamos nos
amar. De nossos imensos canhões de ferro, só flores atiramos.


