sexta-feira, 14 de dezembro de 2012

Camafeu

E aqui estou eu, perdendo a noite mais uma vez. Ou ganhando - depende do ponto de vista.
Preciso escrever um texto sobre ela. 
Hoje não falo de platonismo, romantismo, neurose. Não me perco em devaneios ou desvarios. Ou então é justamente sobre tudo isso, sabe-se lá! 
Hoje, eu penso no que eu posso dizer sobre ela, simplesmente aquela grande e enorme rocha, cujo interior é feito de tanta carne quanto eu. 
Juro, eu tenho tanto a dizer... mas, não sei por onde e nem como começar.
Digamos, então, que eu me dirija diretamente a ela, certo? 
Vamos lá, um esboço do que preciso desenvolver para o dia que se aproxima.

"Você é a cara da coragem. Da força, da perseverança, da luta, da guerra, da vitória. 
É o suor do rosto, é a lágrima no olho, é o sorriso. É aquela que levanta cedo pra trabalhar, mesmo que o trabalho seja ingrato. É a que aceita o que vem de bom grado, se isso fizer-te mais forte. É a cara da esperança. Você é aquela criança de cara fechada, meio emburrada, que só tinha um vestido bonito para usar aos domingos. É aquela que aparece nas fotografias surradas pelo tempo, com aquele jeito cheio de marra que eu conheço desde sempre.
Você é aquela que apanhou da mãe, que apanhou da vida. É aquela que conheceu o pai tarde, mas nunca realmente o teve. É aquela que conhece a dor da fome e da alma. É aquela menina imaculada e internada atrás de muros que se diziam de fé. 
Você é aquela que, eu sei, sentia-se esquecida. Que não sabia o que esperar, quando não se podia esperar mais nada. É aquela que sonhava com uma boneca bonita ou que lhe deixassem as luzes acesas durante a noite.
Você é aquela mocinha desesperada para viver. Aquela que fugia da escola, que fugia de quem era, que fugia de si mesma e de quem a lembrasse disso. 
Você é aquela que se apaixonou cedo. Que amou a figura da segurança, da proteção, do amparo há tanto tempo almejado e, ao mesmo tempo, desconhecido. Dizer-te que foi correto, não posso. Mas eu compreendo e, sinceramente, eu admiro também. Porque você teve coragem de ser quem você queria ser, de estar onde queria estar, de fazer o que queria fazer. Você riu na cara da conveniência, desafiou a retidão, teve peito o suficiente para se jogar no seu desejo. Você pagou caro por isso, eu sei. Mas eu realmente admiro sua audácia de viver o que quis viver, e pouco importa o resto. 
Você é aquela que optou pela dificuldade de uma vida fora dos padrões. Aquela que ergueu-se do chão, da miséria, da dor de alma, da incredulidade. E então eu te admiro ainda mais.
Você é a neta amada. É o orgulho e o coração do que hoje é saudade. É aquela que apegou-se de toda alma ao ser que tanto te amou e, eu sei, te espera de braços abertos, quentinhos e ansiosos por sua menina.
Você é aquela que tem o peito de ferro. Que, da mesma forma que soube abraçar o amor, soube deixar-lo quando percebeu que não era o que precisava. E, mais uma vez, lá está a minha imensa admiração.
Você é aquela que caminhou pela estrada sinuosa, de sol a sol, em uma casa que não era bem um lar. Soube ser o braço forte e, quiçá, até o brado retumbante. Você teve coragem de arriscar e de suportar, por um ideal maior que você mesma. E você conseguiu. Bem, eu estou aqui, então...
Você é o esteio e a base. É o orgulho, é o exemplo, é o porto-seguro. É a capacidade de amar acima de tudo. Você é o colo, o abraço cansado e firme, o chinelo no almoço, o cheiro de proteção. Você é o dia de serviço, o banho corrido, a comida no prato. Você é o rosto da minha multidão. É a cinta de correção e o carro na esquina. É o par de olhos atentos e as palavras duras.
É meu maior foco de confiança. É meu escudo e a minha arma. É o meu maior medo de perder.
Você é a mulher mais incrível que eu conheço, e eu nem me importo com outras, pois eu sei que não são mais do que você. Eu queria ter metade da sua coragem, coragem de ser quem é, quem sempre foi. Queria ter mais de você, bem mais.
Eu não queria que você fosse eterna, só queria que ficasse eternamente ao meu lado. Que me esperasse e que partíssemos juntas, muito velhinhas. Eu juro, não é por egoísmo. É amor demais, mesmo. É a dependência emocional gigantesca que me toma. Desculpe-me por isso. É só que eu não sei, de verdade, viver sem você. 
Você é minha mãe, e eu não posso, nem de longe, imaginar alguém que te ame mais do que eu". 

Bom... é mais ou menos isso aí.

segunda-feira, 10 de dezembro de 2012

Realidade mitológica

Grécia. Eles sempre quiseram essa viagem, apesar de toda crise.
E, mesmo tendo imaginado por tanto tempo e visto milhares de fotos e vídeos na internet, não era nada parecido com o que tinham diante dos olhos.
Estavam todos deitados no chão e, apesar do sol, fazia muito frio. Ainda assim, havia uma piscina enorme e queriam nadar. Ao menos era o que Sofia pensava querer, enquanto olhava, do alto daquele penhasco, o cenário paradisíaco que se estendia. Árvores abstratas, cores que não existem nem no arco-íris projetavam-se no infinito meio verde, meio azul, até onde sua visão alcançava. Parecia mais estar dentro de um de seus sonhos, quando visitava Alice em seu país maravilhoso.
Entretanto, mesmo com a beleza se desenrolando adiante, ela queria mais. Ué, aquele não era um lugar cheio de história, mitos e lendas? Quando teria outra chance de estar ali, sem aviões, sem euros, sem crises, sem realidade? Então. Tinha sede de explorar. 
Todos os companheiros simplesmente desaparecem na próxima cena de que se lembra. E lá está Sofia, em seu vestido justo, com uma lata de cerveja nas mãos. Ok, pode lidar com isso. Não era lá uma Grécia, mas também não é tão ruim assim. Mais uma vez, jogada de um oposto a outro, sem a menor decência de uma explicação plausível. Mas precisava fazer sentido? Não. Só precisava aproveitar.
Ela permite seu corpo mover-se na música. Um pouco mais, entrando no ritmo. A garota totalmente artística ao seu lado lhe faz companhia. Ela sempre faz. Ela sempre sabe. Conversam amenidades e se deixam sorrir sem razão aparente. Sofia é livre por alguns momentos.
Mas então, a merda do seu inconsciente trabalha mais depressa do que seu desejo de liberdade. E quando vira seu rosto, encontra a última coisa que gostaria de ver, a única coisa que gostaria de ver. Como se materializado de seus pesadelos mais profanos e desesperadores, envolto em névoa e orvalho, ele está lá. O barqueiro, seu Caronte.
O mundo revira a sua volta. Sofia fica grata por ser mundo de fumaça e neblina, senão teria caído. Um misto de raiva e euforia toma conta de si. Queria expulsá-lo. Queria correr ao seu encontro. Mas não precisava. Só a ideia de sua presença ali já era mais do que suficiente. Ela já estava em seu lugar de sempre, sentada no pedaço inerte de madeira podre, já marcado de seu quadril, no barco de Caronte. De volta ao submundo. Talvez, por isso, a Grécia deu início ao seu infortúnio. Para o que não fazia sentido, já estava entendendo demais.
Uma fração de segundos e estava ao seu lado. Claro, ele também não estava sozinho. Cerberus, cão fiel, o acompanhava. Somente com tantas cabeças ele poderia ter tantos olhos e tantos sentidos quanto tinha. Novamente, lá estava a razão de tudo. 
Sofia pretendia fingir que não o vira. Que não o notava. Que não respirava o mesmo ar que ele. Coisa essa que ele mesmo não fazia, mas de que importava? Ele lhe dirige palavras desconexas, inapropriadas. Palavras com um significado que, nem de longe, significavam o que queria dizer. Alguma coisa sobre a cerveja, algo entre latas e garrafas. Caronte até usara uma de suas pseudo-autorias típicas. Sim, ele tinha a irritante mania de inventar vocábulos idiotas, mas lhes conferiam autenticidade. Mas que eram idiotas, eram.
Ela tenta desvencilhar-se daquele papo besta, mas está se deliciando com a neblina que ele carrega. Ele se aproxima dela, e ela se torna mais fria do que o gelo polar. Por um momento, ambos tornam-se brumas. Ela parece estar sentada, e ele se inclina. Com uma das mãos, ela aperta a lata, agora fervendo em seus dedos congelados, até que o alumínio corta-lhe os dedos. O sangue escorre e ela gosta da dor. Essa dor distrai a outra, a que sente na outra mão, mas que lhe fere a alma: Caronte toca seus dedos com os lábios. E ela, incapaz de negar-se ao toque, de negar-lhe o toque, de tornar-se o toque. Incapaz. Ele sussurra seus versos dolorosos e conhecidos em sua mão, e eis que ela toma vida própria. Já não é mais ele que lhe toca. Ela passa o dedo por aqueles lábios feridos e ferinos e a saliva mistura-se ao gelo. Versos, saliva e frio. Ela se aproxima, lentamente, como puxada por um imã... sente o cheiro, reconhece o território tão seu e... e... e nem nas brumas ela é livre para ser.
Abre os olhos e está no barco, no meio do Aqueronte.
De volta ao submundo, sem barqueiro que lhe faça a travessia.

sexta-feira, 7 de dezembro de 2012

Conto: Trapo e Vidro - Cap. I



Era uma vez uma boneca de pano. Costurada por hábeis e gentis mãos, repletas de rugas e marcas da vida. A mulher que a fez não gostava de falar a respeito de si, não tinha amigos, não tinha parentes. Era uma mulher quieta, introspectiva. Carregava no olhar o peso da solidão, talvez de alguma dor sem cura. Mas era doce, procurava falar pouco, porém com respeito.
Manuela era seu único orgulho. Tinha o sonho de ter uma filha desde sua infância, quando as bonecas que via estavam sempre atrás de vidros grossos, escondidas nas prateleiras das vitrines. Nunca pudera ter uma. As condições em que vivia, ela e seu pai, não lhes permitia o luxo de ter brinquedos. Por isso, e talvez só por isso, tenha nascido Manuela. O destino não lhe dera bonecas. Também não lhe dera filha ou filho.
Aquela mulher nem era costureira. Tampouco era artesã. Mas por alguma razão que desconhecia, passara anos juntando pedaços de pano. Trapos. Não sabia o que faria com eles, mas tinha necessidade, quase uma sede, de guardá-los. Achava-os lindos. Macios. As vezes, gostava de pegar os mais coloridos e olhar bem de perto, contra a luz, só para ver os finíssimos fios entrelaçados, tão próximos, tão unidos. Juntava seus pequenos restos de tecido e, ao final de cada mês, contava quantos recortes havia conseguido e os alinhava. Colocava-os todos dentro de uma caixa empoeirada ao lado de sua cama. Foi assim por 9 anos.
Um dia, resolveu que já havia juntando demais. Era quase maldade deixar ali, aqueles retalhos todos, esquecidos e amontoados numa caixa, em um canto qualquer de um quartinho meio mofado. Saiu de casa disposta a dar-lhes um rumo. Entrou no minúsculo armazém de uma única porta estreita que havia em sua rua vermelha. Com os poucos trocados que tinha, comprou dois carretéis de linha preta, três agulhas de diferentes tamanhos e voltou pro seu buraco.
Entrou pela porta surrada como se fugisse de balas de canhão. Fechou-a atrás de si e deixou-se encostar por alguns instantes, estava eufórica. Mas não sabia o motivo. Uma excitação sem nome tomou conta de seus sentidos, sorriu sem ver, agarrada ao saco pardo com seus poucos e novos pertences. Encarou a caixa e foi em sua direção. O objeto parecia se mover, parecia pular. Parecia que estava pedindo, suplicando por algo. Ela sentou-se aos pés da cama, no chão, puxou a caixa para perto de si e abriu.
Manuseou cada pedaço de pano, separou algumas cores que achou interessante, algumas texturas variadas. Puxou o saquinho, sacou uma agulha e mediu a linha. Não sabia o que estava fazendo, nem sequer sabia costurar, por Deus! O que faria com aquilo? Porém, não podia ser tão difícil. Tinha que tentar, suas mãos estavam tão quentes que poderia facilmente queimar o tecido. Com os dentes, cortou um pedaço comprido da linha e experimentou na agulha. Depois de duas tentativas, conseguiu alinhavar. Sentiu-se poderosa! A miopia ainda não lhe vencera por completo.
Com as mãos tremulas, segurou firme um pedaço de retalho. Um quadrado lilás, manchado em um dos cantos com um pouco de tinta azul. Da forma como fora manchado, ela tinha a nítida impressão de ver um formato naquele borrão. Talvez uma silhueta, uma árvore. Achou muito bonito, como um descuido, um erro, deu aquele pano simples lilás, sem graça, uma cara toda sua. Tentou firmar a mão e enfiou a agulha pela borda do pano. Deu uma volta, duas, três. Tudo bem, alguma coisa sairia dali. Só não sabia o que. Adorou como a linha preta deu destaque ao lilás e acalmou o borrão azul.
Mas era pouco. Resolveu contar com a sorte: enfiou a mão na caixa e puxou o primeiro tecido que tocou seus dedos. Um retângulo de flanela xadrez, azul e branco. Não combinava em nada com sua árvore azul no fundo lilás. Mas era o que o destino tinha lhe dado, então não trocaria. Colocou o segundo pedaço por baixo do primeiro e foi dando voltas na agulha. Não sabia qual caminho seguir, deixou que o acaso guiasse suas mãos pra onde a vontade lhe mandasse.
O dia tornou-se noite. Seus olhos ardiam e a escuridão não ajudava. Seu indicador já reclamava pelo quinto furo. Precisava de luz, um pouco mais. Arrastou-se para perto da janela e a luz da lua banhou-lhe os cabelos desgrenhados, molhados pelo suor do rosto. Seus olhos estavam embaçados demais, mas tinha que concluir aquilo. Acendeu um toco de vela, colado ao parapeito da janela. E continuou.
Quando os primeiros raios de sol tocaram seu rosto, ela deu a última volta na agulha. Terminou de passá-la no tecido e cortou com os dentes o que restou da linha. Esticou diante dos olhos o que havia feito: um vestido. Nada nele combinava: nem as cores, nem as texturas, nem as formas, nada. Parecia um desenho feito por alguém com quatro anos num dia qualquer da escola. E havia algo mais, algo vermelho. Seu sangue. Os furos no dedo deixaram ali o seu protesto. Agora parecia o desenho de uma criança de quatro anos, encontrado na beira da calçada de uma cidade em guerra, há pelo menos uns 10 anos.
Mas não importava. Era, de longe, a coisa mais bonita que já vira. Que já fizera. Era seu, inteiramente seu. Seus pedaços de pano, juntados por tanto tempo, guardados com cuidado, sonhos de alguma coisa que não sabia o que era. Era a sua linha e a sua agulha, compradas com seus trocados, trocados que conseguiu trabalhando três vezes por semana naquela lavanderia escura e quente, muito quente. Poucos centavos que não davam pra nada. Exceto que deram pra comprar linhas e agulhas. O suficiente pra muito mais do que pensou querer nessa vidinha sem graça.
Era todo seu. Claro, não caberia nem em si e nem em ninguém, nem mesmo na criança de quatro anos que poderia ter-lhe desenhado. Mas era tão importante e especial. Pendurou-lhe na cabeceira da cama, onde pudesse ver todo o tempo. Enfim, suada, suja, cansada e muito feliz, deitou-se na cama e adormeceu.

segunda-feira, 3 de dezembro de 2012

Sem noção do ridículo!

A tendência normal é a gente tentar parecer/ser o menos ridículo possível, certo? Ok. Mas e quando você não ta se importando nem um pouco com "ser normal"? Bom, aí você simplesmente decide publicar algo que deveria - creia-me, DEVERIA MESMO - tentar esconder, apagar, remover, deletar da sua vida. Ao menos se quiser ter um mínimo de dignidade ou de respeito alheio. Maaaaaaas, porque causa eu faria isso, né?

O cinema não poderia perder uma dessas, NEVER. Eu não sei se é a trilha sonora, se é o fato de ser "mudo", se é nosso amigo Odair-nunca-se-viu-mais-gordo, se é a aluna saltitante rodopiando, o "nível Fodão" ou o que mais. Sei que Curta Santos é para os fracos! O que pega mesmo é o Vídeo Sensações (percebe onde começa o ridículo?) dos aspirantes a jornalistas. E depois perguntam porque nosso diploma é caçado, porque não nos levam a sério, etc. Você passa da metade do caminho no curso, daí quando acha que o pior já ficou pra trás, surge uns camaradas e te enfiam essa na cara, goela abaixo! Mas, tudo bem. Valeu a pena. É ridículo, é engraçado, é desesperador. E nostálgico.

E sim, eu sou essa impressionante atriz/pianista/demente/olhosdepanda/assassina do vídeo.
Porra, Hollywood, filma eu!

A Partitura Final