Preciso escrever um texto sobre ela.
Hoje não falo de platonismo, romantismo, neurose. Não me perco em devaneios ou desvarios. Ou então é justamente sobre tudo isso, sabe-se lá!
Hoje, eu penso no que eu posso dizer sobre ela, simplesmente aquela grande e enorme rocha, cujo interior é feito de tanta carne quanto eu.
Juro, eu tenho tanto a dizer... mas, não sei por onde e nem como começar.
Digamos, então, que eu me dirija diretamente a ela, certo?
Vamos lá, um esboço do que preciso desenvolver para o dia que se aproxima.
"Você é a cara da coragem. Da força, da perseverança, da luta, da guerra, da vitória.
É o suor do rosto, é a lágrima no olho, é o sorriso. É aquela que levanta cedo pra trabalhar, mesmo que o trabalho seja ingrato. É a que aceita o que vem de bom grado, se isso fizer-te mais forte. É a cara da esperança. Você é aquela criança de cara fechada, meio emburrada, que só tinha um vestido bonito para usar aos domingos. É aquela que aparece nas fotografias surradas pelo tempo, com aquele jeito cheio de marra que eu conheço desde sempre.
Você é aquela que apanhou da mãe, que apanhou da vida. É aquela que conheceu o pai tarde, mas nunca realmente o teve. É aquela que conhece a dor da fome e da alma. É aquela menina imaculada e internada atrás de muros que se diziam de fé.
Você é aquela que, eu sei, sentia-se esquecida. Que não sabia o que esperar, quando não se podia esperar mais nada. É aquela que sonhava com uma boneca bonita ou que lhe deixassem as luzes acesas durante a noite.
Você é aquela mocinha desesperada para viver. Aquela que fugia da escola, que fugia de quem era, que fugia de si mesma e de quem a lembrasse disso.
Você é aquela que se apaixonou cedo. Que amou a figura da segurança, da proteção, do amparo há tanto tempo almejado e, ao mesmo tempo, desconhecido. Dizer-te que foi correto, não posso. Mas eu compreendo e, sinceramente, eu admiro também. Porque você teve coragem de ser quem você queria ser, de estar onde queria estar, de fazer o que queria fazer. Você riu na cara da conveniência, desafiou a retidão, teve peito o suficiente para se jogar no seu desejo. Você pagou caro por isso, eu sei. Mas eu realmente admiro sua audácia de viver o que quis viver, e pouco importa o resto.
Você é aquela que optou pela dificuldade de uma vida fora dos padrões. Aquela que ergueu-se do chão, da miséria, da dor de alma, da incredulidade. E então eu te admiro ainda mais.
Você é a neta amada. É o orgulho e o coração do que hoje é saudade. É aquela que apegou-se de toda alma ao ser que tanto te amou e, eu sei, te espera de braços abertos, quentinhos e ansiosos por sua menina.
Você é aquela que tem o peito de ferro. Que, da mesma forma que soube abraçar o amor, soube deixar-lo quando percebeu que não era o que precisava. E, mais uma vez, lá está a minha imensa admiração.
Você é aquela que caminhou pela estrada sinuosa, de sol a sol, em uma casa que não era bem um lar. Soube ser o braço forte e, quiçá, até o brado retumbante. Você teve coragem de arriscar e de suportar, por um ideal maior que você mesma. E você conseguiu. Bem, eu estou aqui, então...
Você é o esteio e a base. É o orgulho, é o exemplo, é o porto-seguro. É a capacidade de amar acima de tudo. Você é o colo, o abraço cansado e firme, o chinelo no almoço, o cheiro de proteção. Você é o dia de serviço, o banho corrido, a comida no prato. Você é o rosto da minha multidão. É a cinta de correção e o carro na esquina. É o par de olhos atentos e as palavras duras.
É meu maior foco de confiança. É meu escudo e a minha arma. É o meu maior medo de perder.
Você é a mulher mais incrível que eu conheço, e eu nem me importo com outras, pois eu sei que não são mais do que você. Eu queria ter metade da sua coragem, coragem de ser quem é, quem sempre foi. Queria ter mais de você, bem mais.
Eu não queria que você fosse eterna, só queria que ficasse eternamente ao meu lado. Que me esperasse e que partíssemos juntas, muito velhinhas. Eu juro, não é por egoísmo. É amor demais, mesmo. É a dependência emocional gigantesca que me toma. Desculpe-me por isso. É só que eu não sei, de verdade, viver sem você.
Você é minha mãe, e eu não posso, nem de longe, imaginar alguém que te ame mais do que eu".
Bom... é mais ou menos isso aí.

Nenhum comentário:
Postar um comentário