terça-feira, 25 de junho de 2013

Ode ao desencanto

Naquele espaço pequeno e escuro, só se via fumaça por todo lado. Um vapor quente e espesso, que fazia com que o ar se tornasse sufocante. Mas não para ela. Nua, deitada e submersa na banheira de porcelana, a água fervente parecia mais um iceberg, torturando ainda mais seu corpo cansado. A sensação que tinha era a de ter todos os ossos quebrados, tamanha dor em seu peito. Seus cabelos grudavam-se em torno do rosto, ombros e seios. Ela embalava a si mesma, abraçada aos joelhos enquanto a espuma desaparecia diante de seus olhos perdidos no tempo.
Era-lhe penoso, mas não podia evitar a viagem ao passado. Um passado que as vezes parecia distante demais e ao mesmo tempo tão próximo como se nem de passado pudesse ser chamado. Para o tempo real, só haviam dois meses. Dias em que, na maioria das vezes, a gente vive sem nem ver. Nem considera. Mas esse curto espaço de semanas se tornaram pesados demais para serem tão simplesmente ignorados na vida dela.
Abre seus olhos e está em outro lugar. Uma sequência de cenas, lugares, momentos, odores e sabores variados. Em uma fração de minutos, ela reviveu cada um deles: os primeiros olhares, as conversas, o primeiro beijo, os toques e a forma como sua pele reagia a ele e todo o calhamaço de palavras doces que ouvira, frases e colóquios e poesia, carregados de promessas subentendidas que faziam seu coração e seu cérebro entrarem na mais atroz das guerras: um, se armando com todo arsenal que lhe era possível alcançar; o outro, entregando até a roupa do corpo pra tornar-se ainda mais exposto. Visto a situação atual, faz-se desnecessário contar quem ganhou.
Vivenciados todos os momentos claros, ela estaciona sua mente naquele último dia. Aumenta seu volume interno e reconstitui todo aquele papo infeliz, coisa de quem não devia ter saído da cama. A boca fria e distante dele, enquanto proferia impropérios sem sentido... diria mesmo que era outra pessoa, não poderia haver outra explicação para tanta mudança. Mas o cheiro do seu corpo não deixava dúvidas, entrara pelas narinas dela como música na alma, da mesma forma desde o primeiro minuto em que o vira na vida, reduzindo todo o seu autocontrole e vergonha na cara a pó, fincando seus pés no solo e impedindo a ela que se agarrasse ao último fio de orgulho e amor próprio que ainda restasse e saísse dali, correndo, se resguardando de ouvir tanta porcaria sem razão, tanta contradição. Seu rosto, impassível, não tinha mais emoção, não demonstrava mais nada. Sentia preguiça e raiva daquela insegurança idiota dele, daqueles motivos superficiais e vagos, que nem de longe justificariam a sua atitude (ou a falta dela). "Em minha vida, não tem espaço pra você." Um tiro de canhão teria doido menos e surtido efeito mais positivo, já que não lhe daria tempo de pensar. Mas ele lhe dera. Todo tempo do mundo para pensar e viver com tudo isso.
Vários dias se passaram depois daquilo e ela não podia precisar quantas milhares de vezes parara para pensar e refletir, tentar entender o motivo. Lembrava de olhar profundamente em seus olhos e enxergar um lampejo de luz, aquele brilho que sempre vira quando ele olhava para ela... mas logo se perdia novamente, talvez forçando-se a não acreditar no que vira e fazer daquilo qualquer mínima ponta de esperança.
Calçando seu par de tênis surrado, ela vestiu seu moletom escuro, colocou os fones nos ouvidos e aumentou o volume até quase estourar os tímpanos. A música precisava ser mais alta que seus pensamentos. Muitos dias haviam passado e ela precisava livrar-se de tudo aquilo, livrar-se dele. Abriu a porta e a chuva caia torrencialmente. Porém, não se intimidou. Recebeu, de bom grado, cada gota gelada que caia sobre si, arrepiando os pelos de seu corpo de extremo a extremo. Sentiu-se acolhida: o céu chorava com ela.
Correu a passos largos por entre as ruas desertas, àquela hora não havia ninguém para testemunhar sua dor e sua indignação. Era livre! Só o mar lhe fazia companhia, com suas ondas arrebentando ferozes nas pedras, tão irritadas e chateadas quanto ela. A natureza a estava recebendo de braços abertos em toda sua fúria e sofrimento. Era lindo de se ver.
Ao chegar ao final do caminho, parou. Seus olhos a estavam traindo, aquela imagem que via ao longe não poderia ser real. Parou de correr e passou a andar, mantendo seu olhar fixo naquele foco, aquela silhueta. Quando estava há cerca de 10 metros, não havia mais como duvidar. Ele estava lá. Parado, olhando para ela, completamente molhado, com seus olhos semicerrados, respirando com dificuldade e a boca entreaberta. Ficaram longos e intermináveis minutos apenas se olhando, sem coragem de mexer um músculo sequer e perder aquela visão. Mas em um ímpeto de adrenalina que não sabia nem de onde saiu, suas pernas moveram-se sozinhas. E ela correu, correu e se atirou nos braços abertos dele. Agarraram-se como a um bote em meio a tormenta, única forma de salvação perante a morte iminente. Beijaram-se com tanta força e brutalidade que seus rostos tornaram-se um só, vermelhos e apertados um contra o outro. Ele tirou-a do chão e estreitou ainda mais seu corpo, como se não pudesse nunca mais viver sem ela, como se fosse evaporar e desaparecer no ar se não estivesse grudado a ela. Ficaram assim sem se importar com mais nada: o mundo poderia acabar, eles nem veriam ou se preocupariam com isso. Quando se soltaram, foi de uma vez. Não houve uma palavra... o único som vinha de suas respirações ofegantes. Ela virou-se, deu-lhe as costas e saiu. Caminhando, e não correndo. Não olhou para trás. Não sabe se ele continuou ali ou se também foi embora, não queria saber, seria ainda mais doloroso e, dessa vez, ela poderia não suportar.

Abriu os olhos. Da água, antes doce de seu banho, agora só restava o sabor salgado e amargo de suas lágrimas.