domingo, 25 de agosto de 2013

Guardião

Doce anjo de asas negras, por onde andaste?
Há tanto que não o via! Tu, que a mim sempre acompanhava, soberano por sobre tudo e todos, pairando por entre o mar e o ar... sumiste!
Por que me abandonas? Não vês que tua companhia me faz falta? 
Tão acostumada estou com tua sombra, com tua presença imponente.
Teus olhos cinzas, refletidos em minha dor constante, e teu sorriso sarcástico que me despe... onde estão?
O que te aconteceu? O que são essas marcas? Que fizeram a ti?
Espera, tu estais... desaparecendo? Não, não podes fazer isso!

Tua pele se desfaz... caindo em camadas e pedaços de si mesmo, como folhas de árvore em pleno outono. De negras, tuas asas estão se tornando transparentes... e tuas vestes escuras e sombrias, clareando... 
Por que choras? Por que não me contas o que há contigo?
Não te escondas assim de mim... não podes falar?
Tua boca tão vermelha não espelha mais o teu esplendor. Estás amarrado pelos braços e pernas e tua cabeça pende sobre o ombro... por que não me deixas tocar-te?
Tantas noites, tu me levaste em teus braços para voar alto, tão alto... e agora, minhas mãos te machucam?

Surraram-te às raias da loucura. Profundos cortes marcam teu rosto e tuas costas. E não me permites nem a dádiva da duvida, pois que agora sei. Sei as razões pelas quais estais desaparecendo... estão levando-te de mim. Não é a ti que desejam castigar, mas a mim. Sabiam que, ao ferir-te assim, feriam muito mais a mim. Já não há mais nada. Entrega-te, meu querido e belo cúmplice. Vai-te, antes que seja tarde. Cura-te, salva tua existência e vai, acompanhar outro que mais mereça de ti. Deixa-me e liberta-te. Leva contigo a minha imagem, gravada em tuas asas, dos dias em que estivemos juntos, sendo um só, carne e alma. E assim, em ti, viverei para sempre.

terça-feira, 20 de agosto de 2013

Uno

Prólogo

Parada há poucos metros do meu destino, ainda tive tempo para pensar. Antes que todos os olhos se voltassem para mim. Antes que a música começasse a tocar.
Antes que meus passos me levassem aonde a vida tinha me preparado para estar. E eu só podia olhar para ti, o único que me enxergava. O único que sabia que eu estava ali.
Seus olhos procuravam-me, ansiosos, e mesmo sem que, de fato, pudesses me ver, sabias exatamente onde eu estava. E me deste o tempo necessário da reflexão.
Não temias, pois que sabia perfeitamente que eu não iria a lugar algum.
Enfim, eu havia chegado ao meu ponto final. Ao início do resto de minha, de nossas vidas.
O que quer que eu pensasse, fosse o que fosse, não me levaria dali. Nada me levaria de ti.
Tu sabias... tu sempre soubeste.


Por aquela pequena fração de segundos, refletida em teus olhos, flashs de luzes neon, banhadas de lembranças, espocavam em minha mente. Eu me tornava expectadora de mim mesma.
Havia sido uma trajetória de muitas curvas. Caminhos sinuosos, tortos, com seus grandes penhascos ladeando as margens... perdi as contas de quantas vezes debrucei-me sobre as pedras e fitei a escuridão abaixo de meus pés. Quantas vezes quis ser levada por aquela correnteza, feita de vento e brumas, apenas para saber se, ao tocar o solo, doeria mais. Mas eu sabia, não havia fundo naquele poço.
E eu simplesmente não poderia conhecer o fim.

Seguindo por essa estrada, personagens aos montes, eu conheci. Incógnitas e máscaras, pequenos flocos de neve que insistiam em existir em meio ao lamaçal.
Anjos e demônios dançavam e guerreavam a minha volta. Acompanhei os passos de ambos, ora intrigada pelas plumas das asas, ora instigada pela audácia do impróprio.
Coragem e covardia, medo e força, eu fui a controvérsia que não queria ser. Mas se o amor salva, aquele também me salvou. Pelas mãos pequenas, enrugadas e tão carregadas de vida e de história. Por um coração que confiava no meu, que havia se escondido por entre as costelas e prometera jamais sair.

Retornando ao seio cuja essência me pertence, um novo campo de batalha assim se fez. Soldados e canhões estrategicamente posicionados e prontos para o ataque. Iminente. Bombas, tiros, sangue.
Ah, quanta luta! E quando eu pensava ser vítima de um novo abandono, eis que o guerreiro de todas as peleias, por meio de bravos combatentes, veio em meu auxílio e, assim, resgatou-me.
Novas cicatrizes formaram-se e marcaram minha pele.
Profundas marcas, as quais, com orgulho, conservei.

A tempestade, enfim, cessou. Dias límpidos de sol e luz me foram prometidos. Belos cenários de vida comum, quando a gente brinca de ser feliz e pleno. Tantas vírgulas nas páginas dessa história!
Uma fuga, um lampejo de esperança, um tropeço. Uma luz que se apaga, uma parte que morre. O inesperado que se torna real.
A dor da perda de si mesmo. A vergonha, o nojo, a repulsa, o asco.
Ódio, indignação, negação. Desejos escusos que mancham a alma.

O ressurgimento. Mais um recomeço.
Às mãos do Pai, e somente Dele, dobrei meus joelhos e me coloquei de pé.
Em algum lugar, de alguma forma, tudo aquilo, cedo ou tarde, iria terminar. Mas alguma coisa aconteceu. Tocada diretamente pelo coração do Criador, eis que me surge uma outra vida.
Meu coração passou a bater fora do meu corpo, em outro peito.
Por essa dádiva, eu teria que renovar todas as forças. Ressurgir.

Entreguei-me a missão de ser alguém para outro alguém. Esqueci de ser eu mesma.
Juntei todos os meus anseios, sonhos, perspectivas e guardei.
Pandora, que havia esvaziado sua caixa de desgraças, agora as enchia com os restos do melhor de si.
Um dia, ao líder dos Arcanjos, presentearia.

Mas a força do reverso não podia deixar-me só.
Eras tu... eras tu.
Era o mundo conspirando para que o destino se cumprisse.
Minha falta de sorte, velha conhecida, é claro, não deu-me folga. Apagou-me as lembranças. Mas não levou-te o rosto.
Não era a hora.
Perdida, buscando reencontrar-me e em desespero, só existi, dia após dia, em uma vida que não era minha.

Invadiste meu espaço. Hábil jogador, meu doce e louco vampiro.
Meu cavaleiro de armadura prateada. Meu herói e meu salvador.
Meu menino lindo. Meu cúmplice, meu sorriso sem retorno. Meu namorinho de portão.

Tu me procuraste. A mim!
Em meio a todos os abismos, florestas e sombras.
Brincamos de esconder, sem que ninguém pudesse nos encontrar.
Que tenho eu de especial?
Tenho a ti, e isso torna-me especial. Uma caixa que guarda precioso tesouro. De novo. Pandora.
Tu te mantiveste firme, não desistiu. A vida te fez mais corajoso do que eu, sequer, pudesse imaginar.


O primeiro de todos os capítulos

Volto a realidade quando o vento toca o meu rosto, fazendo cócegas, como fadas.
Meu vestido, leve e claro, baila por entre minhas pernas. As flores, em meu cabelo solto, exalam um perfume que nunca senti.
Abro bem os meus olhos. É chegada a hora.
Uma vida inteira de espera, sem saber onde iria chegar.
Mas nada disso precisava fazer algum sentido. Não mais.

Sinto a areia sob meus pés descalços... faz-se um lindo dia de verão, a brisa amena sacode as folhas das árvores, que emanam uma melodia silenciosa.
Tudo a minha volta parece sorrir. Afundo meus pés na areia, sem me importar com nada. Preciso enraizar-me ali, tornar-me parte da natureza.
Talvez, só assim eu consiga agradecê-la por tudo isso.

As cadeiras, simples, estão dispostas de cada um dos lados do caminho que me leva até você.
Levanto meu rosto e ando, devagar.
Aquele é o meu momento. O nosso momento.
A linda canção de nós dois corta a atmosfera como um beijo roubado.
Ao primeiro passo, eu vejo você. Nossos olhos se encontram e, eu sei, poderia parar de respirar e, ainda assim, sentir-me mais viva do que nunca.
És o meu ar, o meu mundo, a minha razão de continuar.

Tão lindo como o pôr-do-sol que tanto amas.
Tu estás todo de branco, límpido e alvo, contrastando com a tua pele morena, tentadora, perfeita.
A camisa, muito fina e de mangas longas, envolve teu corpo e marca teu peito esculpido. Deixaste o último botão aberto, porque és meu menino levado.
A calça lhe cai perfeitamente à cintura, terminando em teus pés, meus guias, também descalços.
A meu pedido, teu rosto mantém a aspereza selvagem dos pelos de tua barba. Que me importam as conveniências, eu te amei assim desde sempre.
Jamais vi tamanho brilho como em teus olhos, nesse momento. O sol se deitaria aos teus pés e recolheria-se a devida insignificância.

Chego a ti. Toco teu rosto com meus dedos e recosta-te em minha mão. Não há outro lugar, na face desse e de outros planetas, onde eu desejaria estar.
Abres teu sorriso mais gracioso, aquele que faz-me apaixonar por ti todos os dias. E eu quero que o mundo pare de girar, apenas para que eu possa ver-te assim, para sempre.
Mas o nosso "para sempre" fará jus ao seu significado.
Entrelaçamos nossas mãos e, ali, diante do mar, do infinito, olhando nos olhos um do outro, unimos, por mais uma existência, nossas almas e nossos corpos.
Trocando as palavras de nosso próprio repertório, tornamo-nos um.
Voltamos a ser um.
Terminamos o nosso quebra-cabeça.

Toco meus lábios nos teus, selando, nesse beijo, a nossa promessa.
"Nunca me deixe".
Só enquanto eu respirar.
E também depois disso.

Do pouco que muito te digo

Eu o amo por quem tu és. Eu o amo pelo que tu te tornaste e pelo que me faz ser.
Amo-te menino e homem. Amo teu jeito de segurar os lábios com os dentes e como fecha os olhos, balançando a cabeça, quando cantas.
Amo sua maneira de jogar a cabeça para trás, quando está sorrindo, e como tua boca se desenha em traços fortes quando digo uma fofura qualquer.
Amo quando estreitas os olhos se dizemos alguma intimidade. Amo a firmeza do teu olhar, fixo em mim, mesmo estando, ainda, distante.
Amo a tua desenvoltura, tua ironia, teu sarcasmo e a tua falta de pudores.
Amo a tua perseverança e a tua paciência comigo.

Amo a sua delicadeza. Seu sotaque manso e o fato de que invertes a ordem das frases curtas, "sabe não?"
Tua voz se afina quando fazes isso, e eu o amo então.
Amo acordar com uma mensagem sua ou com a tua voz melódica, doce, cantando qualquer gracinha.
Amo ouvir tuas histórias de mocinho e de bandido. A tua confiança em mim.
Amo passar horas ao telefone contigo, mesmo que eu odeie falar ao telefone, de fato.

Amo ter me despido de tantos temores, barreiras e amarras, tudo por ti.
Amo a pessoa que me torno ao teu lado. Amo que tenhas sido você a me descobrir assim.
Eu te amo por tudo que estás fazendo por mim, por si, por nós. Por acreditar.

Não quero te completar, és inteiro por si só. Quero te transbordar.
Que tenhas a mais tudo de bom que vive em ti.
Vou cuidar de ti e de mim. "Eu desistiria da eternidade, apenas para te tocar".
Se existe um outro paraíso que não seja ao teu lado, então não deverias ser chamado assim.
O meu amor vai te proteger. A minha fé vai te resguardar. Eu não vou te perder.

Como eu já disse a você, não tenho mais o que a Deus pedir.
Elevo meus pensamentos a Ele e somente agradeço.
Por você existir. Por ser meu. Por eu ser tua.
Luz dos meus dias, meu grande e eterno campeão.
"Seria mais fácil fazer como todo mundo faz".
Mas nós não somos assim. Somos mais, muito mais.
"Somos mais do que mil: somos um".

Eu te amo, vida. Ésse dois.

sexta-feira, 9 de agosto de 2013

A sombra, a luz e a loucura

Caminhava pela noite densa a passos largos. Pensamentos espocavam à velocidade da luz e de nada adiantavam suas vãs tentativas em refreá-los. O ar era tão pesado e áspero que cortava sua pele muito clara, marcando-a em fendas rasas. Imersa em sua própria sombra... suas asas, negras como seu coração parado, não serviam mais para voar. Apenas faziam peso nas costas. Mais um peso.

Não podia sofrer. Não porque não quisera, mas porque não fazia parte do que era. Não sabia. Criatura sórdida, cuja alma fora vendida e trocada pela promessa da eternidade. No início, achara a proposta tentadora. Mas ainda não conhecia o verdadeiro significado do que é o “para sempre”. Tempo demais, até para quem faz da magia a sua escolha. E passa a vida – e a morte, do corpo e do espírito - manuseando a si mesmo, como a um personagem, enclausurado em um palco cuja cortina jamais se fecha.

Mas não naquela noite. No céu, tantas estrelas que poderia perder-se no tempo e no espaço se olhasse fixamente. A lua, tão clara e brilhante e majestosa, era bela noiva, vestida de um branco imaculado e intocável, a espera de seu astro no altar do império celeste. A luz tornou-se tão intensa que ela não podia continuar ali. Queimava-lhe a carne como brasa, sentia que, antes que sua voz pudesse testemunhar um protesto, já estaria reduzida a cinzas.

Entretanto, havia algo que a prendia ali. Algo mais forte do que sua frieza, seu repúdio pela fragilidade das vidas que tão facilmente levava, sem pensar. Não sabia precisar o que era... o que a mantinha ali, com os olhos naquela tela, pintada pelas hábeis mãos do Criador de todas as coisas. Seria algo semelhante a sua magia? Às vezes, a sensação lhe parecia familiar... não, não era magia. Era loucura. Outro par de olhos seguia aquele mesmo cenário. E, como um imã invertido, que só atrai o que não presta, tanto quanto a si mesma e não o oposto, encontrava-se ali, daquela maneira, presa por fios invisíveis de puro magnetismo. Olhos opacos, perdidos e loucos, buscando o que também não sabia se queria.

Se pudesse (e soubesse, e talvez quisesse) aconselhar, lhe diria: afasta-te, faça-o enquanto dou-te a chance. Antes que meus tentáculos, feitos de dor e horror, o prendam de forma irreversível e tu te tornes mais uma de minhas vítimas. Indefeso, incapaz, vivo apenas pelo curto espaço de satisfazer minha vontade, meu prazer mórbido.

Mas como implantar algum juízo e discernimento em uma mente que a sanidade desconhece? E para qual de seus tantos “eus” suplicar? De todos os de ti que existam nessa mente de ninguém, não há quem possa ouvir, tampouco compreender. Tu te entregas, de bom grado e com um sorriso demoníaco nos lábios largos, à escuridão de que sou feita.

Desisto de procurar lampejos de humanidade em minha própria consciência. Entro no labirinto da demência que queres impor. Abraço minha obscuridade e nem em teu último nível de auspício poderias me intimidar ou influenciar. A alucinação não me retém. Somente o delírio faz frente ao que uso de mais tenebroso. Não se pode dominar o que não há reflexos.