segunda-feira, 10 de dezembro de 2012

Realidade mitológica

Grécia. Eles sempre quiseram essa viagem, apesar de toda crise.
E, mesmo tendo imaginado por tanto tempo e visto milhares de fotos e vídeos na internet, não era nada parecido com o que tinham diante dos olhos.
Estavam todos deitados no chão e, apesar do sol, fazia muito frio. Ainda assim, havia uma piscina enorme e queriam nadar. Ao menos era o que Sofia pensava querer, enquanto olhava, do alto daquele penhasco, o cenário paradisíaco que se estendia. Árvores abstratas, cores que não existem nem no arco-íris projetavam-se no infinito meio verde, meio azul, até onde sua visão alcançava. Parecia mais estar dentro de um de seus sonhos, quando visitava Alice em seu país maravilhoso.
Entretanto, mesmo com a beleza se desenrolando adiante, ela queria mais. Ué, aquele não era um lugar cheio de história, mitos e lendas? Quando teria outra chance de estar ali, sem aviões, sem euros, sem crises, sem realidade? Então. Tinha sede de explorar. 
Todos os companheiros simplesmente desaparecem na próxima cena de que se lembra. E lá está Sofia, em seu vestido justo, com uma lata de cerveja nas mãos. Ok, pode lidar com isso. Não era lá uma Grécia, mas também não é tão ruim assim. Mais uma vez, jogada de um oposto a outro, sem a menor decência de uma explicação plausível. Mas precisava fazer sentido? Não. Só precisava aproveitar.
Ela permite seu corpo mover-se na música. Um pouco mais, entrando no ritmo. A garota totalmente artística ao seu lado lhe faz companhia. Ela sempre faz. Ela sempre sabe. Conversam amenidades e se deixam sorrir sem razão aparente. Sofia é livre por alguns momentos.
Mas então, a merda do seu inconsciente trabalha mais depressa do que seu desejo de liberdade. E quando vira seu rosto, encontra a última coisa que gostaria de ver, a única coisa que gostaria de ver. Como se materializado de seus pesadelos mais profanos e desesperadores, envolto em névoa e orvalho, ele está lá. O barqueiro, seu Caronte.
O mundo revira a sua volta. Sofia fica grata por ser mundo de fumaça e neblina, senão teria caído. Um misto de raiva e euforia toma conta de si. Queria expulsá-lo. Queria correr ao seu encontro. Mas não precisava. Só a ideia de sua presença ali já era mais do que suficiente. Ela já estava em seu lugar de sempre, sentada no pedaço inerte de madeira podre, já marcado de seu quadril, no barco de Caronte. De volta ao submundo. Talvez, por isso, a Grécia deu início ao seu infortúnio. Para o que não fazia sentido, já estava entendendo demais.
Uma fração de segundos e estava ao seu lado. Claro, ele também não estava sozinho. Cerberus, cão fiel, o acompanhava. Somente com tantas cabeças ele poderia ter tantos olhos e tantos sentidos quanto tinha. Novamente, lá estava a razão de tudo. 
Sofia pretendia fingir que não o vira. Que não o notava. Que não respirava o mesmo ar que ele. Coisa essa que ele mesmo não fazia, mas de que importava? Ele lhe dirige palavras desconexas, inapropriadas. Palavras com um significado que, nem de longe, significavam o que queria dizer. Alguma coisa sobre a cerveja, algo entre latas e garrafas. Caronte até usara uma de suas pseudo-autorias típicas. Sim, ele tinha a irritante mania de inventar vocábulos idiotas, mas lhes conferiam autenticidade. Mas que eram idiotas, eram.
Ela tenta desvencilhar-se daquele papo besta, mas está se deliciando com a neblina que ele carrega. Ele se aproxima dela, e ela se torna mais fria do que o gelo polar. Por um momento, ambos tornam-se brumas. Ela parece estar sentada, e ele se inclina. Com uma das mãos, ela aperta a lata, agora fervendo em seus dedos congelados, até que o alumínio corta-lhe os dedos. O sangue escorre e ela gosta da dor. Essa dor distrai a outra, a que sente na outra mão, mas que lhe fere a alma: Caronte toca seus dedos com os lábios. E ela, incapaz de negar-se ao toque, de negar-lhe o toque, de tornar-se o toque. Incapaz. Ele sussurra seus versos dolorosos e conhecidos em sua mão, e eis que ela toma vida própria. Já não é mais ele que lhe toca. Ela passa o dedo por aqueles lábios feridos e ferinos e a saliva mistura-se ao gelo. Versos, saliva e frio. Ela se aproxima, lentamente, como puxada por um imã... sente o cheiro, reconhece o território tão seu e... e... e nem nas brumas ela é livre para ser.
Abre os olhos e está no barco, no meio do Aqueronte.
De volta ao submundo, sem barqueiro que lhe faça a travessia.

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