domingo, 25 de novembro de 2012

Saudosa maloca, como na música


O tempo não pára. O mundo continua girando, os dias e as noites se sucedendo, o relógio caminhando em círculos contínuos, sempre na mesma direção.
Sinto saudades.
Saudades de coisas vividas, de pessoas vistas, de conversas tidas, de risadas incontidas.
Sinto falta dos dias de chuva, de olhar a água correndo pelas guias de minha rua, das folhas secas levadas pelo vento e dos galhos dos meus pinheiros balançando pra lá e pra cá, numa dança misteriosa e embalada.
Sinto falta das manhãs frias, daquele rastro de sol apenas, que cortava as nuvens clarinhas e vinha se deitar em minha janela.
Saudades das roupas dobradas sempre no mesmo lugar, da mesma melodia ao despertar, da pressa de ir aonde sempre ia.
Sinto saudades de caminhar lado a lado com aquele irmão, de trocar idéias bobas, de falar besteiras que ficaram marcadas nas pedras da travessia. Saudades do vício escondido, que me fazia sentir tão fora da lei, tão adulta, tão dentro daquela nossa realidade adolescente.
Meu peito dói ao lembrar do aperto no degrau, das confidências matinais, do primeiro cigarro e do primeiro sorriso do dia.
Sinto falta das roupas largadas, do jeito despojado, relaxado, impensado. De ser assim e de ser igual. De ser assim como todo mundo e de ser tão legal.
Sinto saudades imensas de uma das minhas partes, de laços eternos. Das mentirinhas bestas pra impressionar os mais jovens e nos aproximar dos mais velhos. Saudades das festas infantis e dos passos combinados.
Saudades das danças decoradas. De sentar na calçada e comer bolacha, de jogar bola na rua, de escrever em cadernos, de cantar velhas canções, colecionar CD's, papéis de cartas, de desenhar nas paredes do quarto, de fazer arte no tênis, de passar madrugadas perdida em planos e sonhos pra adultos.
Há pouco, ouvi que pra ganharmos faz-se imprescindível perdermos.
Ganhei muito. Vivi muito, amei muito, chorei muito, sofri muito, sorri muito.
Me arrependi do que fiz, do que não fiz, do que poderia ter feito e do que deveria ter feito.
Vi pessoas nascendo, pessoas morrendo, andei descalça, subi morros, me escondi, reclamei, eu vivi.
Perdi muito. Mais do que poderia imaginar. Mais do que posso escrever que perdi. Perdemo-nos. O mundo girou, e levou cada um de nós para um lado. Vértices separados da mesma figura complexa.
Tento, ainda, me encaixar em uma nova geometria. Mas tudo parece um círculo, onde não há lados e pontos de união.
O que mais sinto saudades é de fazer parte dessas saudades.
Quero ter um lugar pra chamar de meu.

"Saudosa maloca, maloca querida, dim dim donde nóis passemo dias feliz de nossas vidas".

Texto escrito em 14/04/2010.

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