Ela levanta a cabeça e olha adiante. A frente, a estrada
escura e fria se torna apavorante.
De tudo que havia, pouco restou. Ela volta dois passos. Pára
e reflete.
Deita-se sobre o chão duro de concreto. Não está satisfeita.
Uma árvore talvez fosse boa amiga, mas naquele instantes, só existiam apenas
pedras.
Sabe que precisa continuar, mas a sua curiosidade é maior.
Naquele instante, ela nem sem lembra mais do que causou essa sua repentina sede
pelo passado. Só sabia que precisava recordar.
Encosta-se sobre a superfície dura e fita a noite. Sem lua e
nenhuma estrela. Só a chuva gelada descia como um pano feito de milhares de
adagas a cortarem sua carne cansada, suada, marcada pelas cicatrizes do tempo.
Tempo esse que nunca fora seu grande aliado.
Deitada de costas, ela vira a cabeça para trás. Fecha seus
olhos escuros. Lágrimas caem, rasgando sua face dolorida e incolor.
Dentro de sua mente, ela caminha. Abre de um enorme livro,
não um qualquer, mas um que lhe é de fácil acesso quando aquela mania de querer
saber aperta. Não sabe nem ao menos se ainda sabe ler. Mas descobre que sim,
para sua decepção. O analfabetismo nesses momentos cairia muitíssimo bem.
O que procura, afinal? As velhas páginas, amarelas,
rasgadas, quase totalmente pútridas do que antes ela lia com sagacidade. E lá
está: a sua história. Ela fecha as pálpebras pesadas, na verdade já sabendo que
tudo estaria ali. Mera e besta ilusão de acreditar que talvez tivessem sido destruídas.
Ela devora cada palavra. Imediatamente, uma mistura de ódio,
nojo, desejo e satisfação se apoderam de sua alma sem que ela queira. Nem tudo
do que havia ali estava totalmente correto, mas a forma como fora delineado era
incrivelmente delicioso. Quase sente o gosto e a textura daquelas linhas.
Sem pensar duas vezes, ela joga fora aquele livro, aquele
antro de perdições.
Mas era bom. E lhe parecia estranhamente plausível que lhe
mantivessem ali.
Maldito destino, maldito seja o carma que nos leva à caminhos
tortuosos e com acesso restrito.
Mas ela não se sente vencida, ainda. Aperta ainda mais os
cílios molhados e outras cenas se desenham diante de si. Mais imagens do que o
todo. Mas não são as que ela quer. Ela serve-se de um gole de café amargo e
imaginário para segurar a ânsia que tem de dormir para sempre.
Já não encontra mais o que procurava. Mas lembra-se muito
bem dos detalhes. E se lembrasse de si, lembraria do outro, que era
praticamente igual a ela, naquele momento.
Os sorrisos e os olhares, o toque no cabelo e no rosto, as
horas gastas num papo sem nexo.
Ela odiava tudo aquilo. Odiava com todas as suas forças. E
odiava ainda mais a falta que sentia de tudo aquilo. Era-lhe nocivo como fogo
em brasa no meio das pernas. Mas havia algo naquele corpo, naquela vida,
naquele ser tão vil e sem caráter que a atraia mais do que ela acreditava.
Nesse instante, ela volta a si. Abre seus olhos escuros e
endireita-se sobre a pedra. Seu corpo já estava todo coberto de lama. Ela
esfrega as mãos na terra ardida enquanto suas lágrimas se misturam com a chuva
deixando um gosto peculiar na boca.
Nem mesmo o cigarro amigo lhe fazia companhia mais.
Dissolvera-se na tempestade de suas emoções.
Ela levanta. Apóia-se confiante e relutante por sobre as
pernas que lhe haviam levado até ali. E por tantos outros caminhos que lhe eram
vivos na memória.
Joga seus cabelos para trás num gesto bruto, como se
querendo convencer a si mesma de sua coragem e capacidade.
Se era mesmo forte, não sabia mais.
Lutava com todas as suas armas para que um dia o véu que lhe
cobria o rosto fosse dilacerado em todo seu esplendor. Sabia que esse dia
chegaria.
E não tinha piedade de ninguém. Quando aquele dia chegasse,
sabia o que queria e o que faria, certamente. Riria na cara de todos os seus
desafetos. "Eu disse, não disse?"
Tudo que aprendeu valeria por apenas aquele momento de
satisfação suprema.
E com esse pensamento e essa certeza mais do que nunca
pulsando em seu peito, ajeitou os trapos que lhe serviam de roupas e deu o
próximo passo e o próximo. Enfim seguiu.
Confiante e com um sorriso franco e cruel no
rosto - o sorriso daqueles que sabem lutar. E que esperam.Texto escrito em 03/12/2010.
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