terça-feira, 27 de novembro de 2012

Tempestade


Ela levanta a cabeça e olha adiante. A frente, a estrada escura e fria se torna apavorante.
De tudo que havia, pouco restou. Ela volta dois passos. Pára e reflete.
Deita-se sobre o chão duro de concreto. Não está satisfeita. Uma árvore talvez fosse boa amiga, mas naquele instantes, só existiam apenas pedras.
Sabe que precisa continuar, mas a sua curiosidade é maior. Naquele instante, ela nem sem lembra mais do que causou essa sua repentina sede pelo passado. Só sabia que precisava recordar.
Encosta-se sobre a superfície dura e fita a noite. Sem lua e nenhuma estrela. Só a chuva gelada descia como um pano feito de milhares de adagas a cortarem sua carne cansada, suada, marcada pelas cicatrizes do tempo. Tempo esse que nunca fora seu grande aliado.
Deitada de costas, ela vira a cabeça para trás. Fecha seus olhos escuros. Lágrimas caem, rasgando sua face dolorida e incolor.
Dentro de sua mente, ela caminha. Abre de um enorme livro, não um qualquer, mas um que lhe é de fácil acesso quando aquela mania de querer saber aperta. Não sabe nem ao menos se ainda sabe ler. Mas descobre que sim, para sua decepção. O analfabetismo nesses momentos cairia muitíssimo bem.
O que procura, afinal? As velhas páginas, amarelas, rasgadas, quase totalmente pútridas do que antes ela lia com sagacidade. E lá está: a sua história. Ela fecha as pálpebras pesadas, na verdade já sabendo que tudo estaria ali. Mera e besta ilusão de acreditar que talvez tivessem sido destruídas.
Ela devora cada palavra. Imediatamente, uma mistura de ódio, nojo, desejo e satisfação se apoderam de sua alma sem que ela queira. Nem tudo do que havia ali estava totalmente correto, mas a forma como fora delineado era incrivelmente delicioso. Quase sente o gosto e a textura daquelas linhas.
Sem pensar duas vezes, ela joga fora aquele livro, aquele antro de perdições.
Mas era bom. E lhe parecia estranhamente plausível que lhe mantivessem ali.
Maldito destino, maldito seja o carma que nos leva à caminhos tortuosos e com acesso restrito.
Mas ela não se sente vencida, ainda. Aperta ainda mais os cílios molhados e outras cenas se desenham diante de si. Mais imagens do que o todo. Mas não são as que ela quer. Ela serve-se de um gole de café amargo e imaginário para segurar a ânsia que tem de dormir para sempre.
Já não encontra mais o que procurava. Mas lembra-se muito bem dos detalhes. E se lembrasse de si, lembraria do outro, que era praticamente igual a ela, naquele momento.
Os sorrisos e os olhares, o toque no cabelo e no rosto, as horas gastas num papo sem nexo.

Ela odiava tudo aquilo. Odiava com todas as suas forças. E odiava ainda mais a falta que sentia de tudo aquilo. Era-lhe nocivo como fogo em brasa no meio das pernas. Mas havia algo naquele corpo, naquela vida, naquele ser tão vil e sem caráter que a atraia mais do que ela acreditava.
Nesse instante, ela volta a si. Abre seus olhos escuros e endireita-se sobre a pedra. Seu corpo já estava todo coberto de lama. Ela esfrega as mãos na terra ardida enquanto suas lágrimas se misturam com a chuva deixando um gosto peculiar na boca.
Nem mesmo o cigarro amigo lhe fazia companhia mais. Dissolvera-se na tempestade de suas emoções.
Ela levanta. Apóia-se confiante e relutante por sobre as pernas que lhe haviam levado até ali. E por tantos outros caminhos que lhe eram vivos na memória.
Joga seus cabelos para trás num gesto bruto, como se querendo convencer a si mesma de sua coragem e capacidade.
Se era mesmo forte, não sabia mais.
Lutava com todas as suas armas para que um dia o véu que lhe cobria o rosto fosse dilacerado em todo seu esplendor. Sabia que esse dia chegaria.
E não tinha piedade de ninguém. Quando aquele dia chegasse, sabia o que queria e o que faria, certamente. Riria na cara de todos os seus desafetos. "Eu disse, não disse?"
Tudo que aprendeu valeria por apenas aquele momento de satisfação suprema.
E com esse pensamento e essa certeza mais do que nunca pulsando em seu peito, ajeitou os trapos que lhe serviam de roupas e deu o próximo passo e o próximo. Enfim seguiu.
Confiante e com um sorriso franco e cruel no rosto - o sorriso daqueles que sabem lutar. E que esperam.

Texto escrito em 03/12/2010.

Nenhum comentário:

Postar um comentário