quinta-feira, 29 de novembro de 2012

La Sombra, o meu clã


Eu quero começar de novo. Quero voltar ao ponto de partida. Quero retomar de onde parei.
Eu quero beber o que restou do meu copo. Quero dar a última tragada no meu cigarro, tão forte e tão profunda que atravesse o filtro e me queime os lábios. Eu quero me prender de novo. Quero ultrapassar os muros e me esconder atrás da porta. Quero abrir aquela janela, quero passar da sacada, quero me pendurar no alto.
Eu quero ouvir mais uma vez aquela música. Quero repeti-la até que meus tímpanos gritem em protesto e minha garganta arda de tanto entoar seus versos. Eu quero vestir a mesma roupa, calçar o mesmo sapato e pintar a boca da mesma cor.
Eu quero dar os mesmos passos e refazer o mesmo caminho. Eu quero agarrar a mesma corda e me enforcar nela. Quero que meus pulmões explodam em migalhas pela falta de ar. Quero a parede às minhas costas apertando minhas costelas. Quero a multidão de três me observando. Quero me apoiar em qualquer objeto maior do que eu para sustentar as pernas bambas. Quero estreitar os braços na mesma geometria afunilada. Quero esticar o pescoço para alcançar a perdição do impróprio.
Eu quero me sentir incapaz de negar. Quero pouco me importar com o depois. Quero brincar de ser quem pode fazer o que quer. Eu quero que me cortem a língua e que joguem meus princípios ladeira abaixo, pra onde eu jamais possa alcançar. Eu quero me perder na irracionalidade.
Eu quero estar impecável. Quero meu corpo em curvas de pista de concreto. Quero que meus pelos estejam delineados nos lugares certos. Quero a pele meio bronzeada de sol do meio dia no inverno. Quero meus cabelos espessos como um manto.
Eu quero esmigalhar os seus sentidos. Quero destruir suas barreiras, quero te afogar no próprio ódio. Quero vomitar minha leviandade em seus olhos. Quero que o suor cubra tua alma mais do que teu corpo. Quero arrancar suas palavras da base da língua antes que teu cérebro seja capaz de articular uma sílaba sequer. Quero me pendurar nos teus cabelos como se fosse o último pedaço de grama verde no meio do deserto.
Eu quero te ouvir gritar até secar as entranhas. Quero que rasteje profanamente, agarrando-se às minhas pernas lisas. Quero tocar teu rosto com a sutileza de um urso infernal. Quero te levar para as profundezas do sétimo inferno. Quero destruir teus sonhos, esmigalhar teus ideais. Quero que sangre por todos os poros.
Eu quero reduzir-te ao pó do qual vieste, só para soprar-te em meu decote. Só pra ver tuas partículas desfazerem-se na minha pele, ardendo como  sal e limão na ferida. E quero me permitir sentir a dor que me causarás.
E tudo isso, tudo o que eu quero, é porque eu posso - tanto quanto eu sempre pude. 

Um comentário: