Prólogo
Parada há poucos metros do meu destino, ainda tive tempo para pensar. Antes que todos os olhos se voltassem para mim. Antes que a música começasse a tocar.
Antes que meus passos me levassem aonde a vida tinha me preparado para estar. E eu só podia olhar para ti, o único que me enxergava. O único que sabia que eu estava ali.
Seus olhos procuravam-me, ansiosos, e mesmo sem que, de fato, pudesses me ver, sabias exatamente onde eu estava. E me deste o tempo necessário da reflexão.
Não temias, pois que sabia perfeitamente que eu não iria a lugar algum.
Enfim, eu havia chegado ao meu ponto final. Ao início do resto de minha, de nossas vidas.
O que quer que eu pensasse, fosse o que fosse, não me levaria dali. Nada me levaria de ti.
Tu sabias... tu sempre soubeste.
Por aquela pequena fração de segundos, refletida em teus olhos, flashs de luzes neon, banhadas de lembranças, espocavam em minha mente. Eu me tornava expectadora de mim mesma.
Havia sido uma trajetória de muitas curvas. Caminhos sinuosos, tortos, com seus grandes penhascos ladeando as margens... perdi as contas de quantas vezes debrucei-me sobre as pedras e fitei a escuridão abaixo de meus pés. Quantas vezes quis ser levada por aquela correnteza, feita de vento e brumas, apenas para saber se, ao tocar o solo, doeria mais. Mas eu sabia, não havia fundo naquele poço.
E eu simplesmente não poderia conhecer o fim.
Seguindo por essa estrada, personagens aos montes, eu conheci. Incógnitas e máscaras, pequenos flocos de neve que insistiam em existir em meio ao lamaçal.
Anjos e demônios dançavam e guerreavam a minha volta. Acompanhei os passos de ambos, ora intrigada pelas plumas das asas, ora instigada pela audácia do impróprio.
Coragem e covardia, medo e força, eu fui a controvérsia que não queria ser. Mas se o amor salva, aquele também me salvou. Pelas mãos pequenas, enrugadas e tão carregadas de vida e de história. Por um coração que confiava no meu, que havia se escondido por entre as costelas e prometera jamais sair.
Retornando ao seio cuja essência me pertence, um novo campo de batalha assim se fez. Soldados e canhões estrategicamente posicionados e prontos para o ataque. Iminente. Bombas, tiros, sangue.
Ah, quanta luta! E quando eu pensava ser vítima de um novo abandono, eis que o guerreiro de todas as peleias, por meio de bravos combatentes, veio em meu auxílio e, assim, resgatou-me.
Novas cicatrizes formaram-se e marcaram minha pele.
Profundas marcas, as quais, com orgulho, conservei.
A tempestade, enfim, cessou. Dias límpidos de sol e luz me foram prometidos. Belos cenários de vida comum, quando a gente brinca de ser feliz e pleno. Tantas vírgulas nas páginas dessa história!
Uma fuga, um lampejo de esperança, um tropeço. Uma luz que se apaga, uma parte que morre. O inesperado que se torna real.
A dor da perda de si mesmo. A vergonha, o nojo, a repulsa, o asco.
Ódio, indignação, negação. Desejos escusos que mancham a alma.
O ressurgimento. Mais um recomeço.
Às mãos do Pai, e somente Dele, dobrei meus joelhos e me coloquei de pé.
Em algum lugar, de alguma forma, tudo aquilo, cedo ou tarde, iria terminar. Mas alguma coisa aconteceu. Tocada diretamente pelo coração do Criador, eis que me surge uma outra vida.
Meu coração passou a bater fora do meu corpo, em outro peito.
Por essa dádiva, eu teria que renovar todas as forças. Ressurgir.
Entreguei-me a missão de ser alguém para outro alguém. Esqueci de ser eu mesma.
Juntei todos os meus anseios, sonhos, perspectivas e guardei.
Pandora, que havia esvaziado sua caixa de desgraças, agora as enchia com os restos do melhor de si.
Um dia, ao líder dos Arcanjos, presentearia.
Mas a força do reverso não podia deixar-me só.
Eras tu... eras tu.
Era o mundo conspirando para que o destino se cumprisse.
Minha falta de sorte, velha conhecida, é claro, não deu-me folga. Apagou-me as lembranças. Mas não levou-te o rosto.
Não era a hora.
Perdida, buscando reencontrar-me e em desespero, só existi, dia após dia, em uma vida que não era minha.
Invadiste meu espaço. Hábil jogador, meu doce e louco vampiro.
Meu cavaleiro de armadura prateada. Meu herói e meu salvador.
Meu menino lindo. Meu cúmplice, meu sorriso sem retorno. Meu namorinho de portão.
Tu me procuraste. A mim!
Em meio a todos os abismos, florestas e sombras.
Brincamos de esconder, sem que ninguém pudesse nos encontrar.
Que tenho eu de especial?
Tenho a ti, e isso torna-me especial. Uma caixa que guarda precioso tesouro. De novo. Pandora.
Tu te mantiveste firme, não desistiu. A vida te fez mais corajoso do que eu, sequer, pudesse imaginar.
O primeiro de todos os capítulos
Volto a realidade quando o vento toca o meu rosto, fazendo cócegas, como fadas.
Meu vestido, leve e claro, baila por entre minhas pernas. As flores, em meu cabelo solto, exalam um perfume que nunca senti.
Abro bem os meus olhos. É chegada a hora.
Uma vida inteira de espera, sem saber onde iria chegar.
Mas nada disso precisava fazer algum sentido. Não mais.
Sinto a areia sob meus pés descalços... faz-se um lindo dia de verão, a brisa amena sacode as folhas das árvores, que emanam uma melodia silenciosa.
Tudo a minha volta parece sorrir. Afundo meus pés na areia, sem me importar com nada. Preciso enraizar-me ali, tornar-me parte da natureza.
Talvez, só assim eu consiga agradecê-la por tudo isso.
As cadeiras, simples, estão dispostas de cada um dos lados do caminho que me leva até você.
Levanto meu rosto e ando, devagar.
Aquele é o meu momento. O nosso momento.
A linda canção de nós dois corta a atmosfera como um beijo roubado.
Ao primeiro passo, eu vejo você. Nossos olhos se encontram e, eu sei, poderia parar de respirar e, ainda assim, sentir-me mais viva do que nunca.
És o meu ar, o meu mundo, a minha razão de continuar.
Tão lindo como o pôr-do-sol que tanto amas.
Tu estás todo de branco, límpido e alvo, contrastando com a tua pele morena, tentadora, perfeita.
A camisa, muito fina e de mangas longas, envolve teu corpo e marca teu peito esculpido. Deixaste o último botão aberto, porque és meu menino levado.
A calça lhe cai perfeitamente à cintura, terminando em teus pés, meus guias, também descalços.
A meu pedido, teu rosto mantém a aspereza selvagem dos pelos de tua barba. Que me importam as conveniências, eu te amei assim desde sempre.
Jamais vi tamanho brilho como em teus olhos, nesse momento. O sol se deitaria aos teus pés e recolheria-se a devida insignificância.
Chego a ti. Toco teu rosto com meus dedos e recosta-te em minha mão. Não há outro lugar, na face desse e de outros planetas, onde eu desejaria estar.
Abres teu sorriso mais gracioso, aquele que faz-me apaixonar por ti todos os dias. E eu quero que o mundo pare de girar, apenas para que eu possa ver-te assim, para sempre.
Mas o nosso "para sempre" fará jus ao seu significado.
Entrelaçamos nossas mãos e, ali, diante do mar, do infinito, olhando nos olhos um do outro, unimos, por mais uma existência, nossas almas e nossos corpos.
Trocando as palavras de nosso próprio repertório, tornamo-nos um.
Voltamos a ser um.
Terminamos o nosso quebra-cabeça.
Toco meus lábios nos teus, selando, nesse beijo, a nossa promessa.
"Nunca me deixe".
Só enquanto eu respirar.
E também depois disso.
Do pouco que muito te digo
Eu o amo por quem tu és. Eu o amo pelo que tu te tornaste e pelo que me faz ser.
Amo-te menino e homem. Amo teu jeito de segurar os lábios com os dentes e como fecha os olhos, balançando a cabeça, quando cantas.
Amo sua maneira de jogar a cabeça para trás, quando está sorrindo, e como tua boca se desenha em traços fortes quando digo uma fofura qualquer.
Amo quando estreitas os olhos se dizemos alguma intimidade. Amo a firmeza do teu olhar, fixo em mim, mesmo estando, ainda, distante.
Amo a tua desenvoltura, tua ironia, teu sarcasmo e a tua falta de pudores.
Amo a tua perseverança e a tua paciência comigo.
Amo a sua delicadeza. Seu sotaque manso e o fato de que invertes a ordem das frases curtas, "sabe não?"
Tua voz se afina quando fazes isso, e eu o amo então.
Amo acordar com uma mensagem sua ou com a tua voz melódica, doce, cantando qualquer gracinha.
Amo ouvir tuas histórias de mocinho e de bandido. A tua confiança em mim.
Amo passar horas ao telefone contigo, mesmo que eu odeie falar ao telefone, de fato.
Amo ter me despido de tantos temores, barreiras e amarras, tudo por ti.
Amo a pessoa que me torno ao teu lado. Amo que tenhas sido você a me descobrir assim.
Eu te amo por tudo que estás fazendo por mim, por si, por nós. Por acreditar.
Não quero te completar, és inteiro por si só. Quero te transbordar.
Que tenhas a mais tudo de bom que vive em ti.
Vou cuidar de ti e de mim. "Eu desistiria da eternidade, apenas para te tocar".
Se existe um outro paraíso que não seja ao teu lado, então não deverias ser chamado assim.
O meu amor vai te proteger. A minha fé vai te resguardar. Eu não vou te perder.
Como eu já disse a você, não tenho mais o que a Deus pedir.
Elevo meus pensamentos a Ele e somente agradeço.
Por você existir. Por ser meu. Por eu ser tua.
Luz dos meus dias, meu grande e eterno campeão.
"Seria mais fácil fazer como todo mundo faz".
Mas nós não somos assim. Somos mais, muito mais.
"Somos mais do que mil: somos um".
Eu te amo, vida. Ésse dois.

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