segunda-feira, 21 de outubro de 2013

Canhões e flores

Nós somos gladiadores e essa é a nossa arena de sonhos.
Oponentes que lutam do mesmo lado, pelo mesmo prêmio.
Nessa luta omissa, em nossos golpes sutis, somos mais autodefesa que vontade de atacar. Ferimos, sim, mas a intenção nem de longe significa um anseio de machucar. É mais como uma maneira de mostrar "quem pode mais". Um jeito démodé de vestir a armadura da indiferença quando o corpo está, de fato, encharcado de insegurança. Cada célula estremece, tal como se uma agulha muito fina penetrasse no mais profundo do peito e espetasse cada milímetro do ego e do orgulho. Juramos a nós mesmos não nos importar. Mas é em vão e bem sabemos disso. Cresce a necessidade de autoafirmação, só para mascarar a adrenalina correndo nas veias, exalando pelos poros uma sinfonia, aos berros, de indignação.
Um apega-se à liberdade. O outro, ao cárcere. E nessa batalha, nenhum dos lados obtém vantagem. Estampamos sorrisos nos rostos bem treinados, erguemos o corpo, em reles tentativa de provar uma imponência que não existe. Usamos o cotidiano como arma. Mas os elmos dourados que nos cobrem a face tão pesadamente, em nada impedem nossos olhos de reclamar os direitos da alma. A mesma alma, fragmentada apenas, nesse pequeno espaço infinito de tempo.

E a noite, quando despimo-nos de toda essa parafernália, podemos, enfim, dar vazão a tudo do que somos feitos. Longe de nosso cenário compartilhado, quando livres dos escudos que carregamos, os corpos pesam mais que chumbo. Porque de toda essa nossa guerra muda, só o que queremos ainda silenciar são os gritos ensurdecedores que clamam um pelo outro. Calar a sua boca com a minha boca e deixar extravasar todo esse ódio pelo infortúnio do destino no calor e no suor de nosso desejo doentio e louco. Amamos nos odiar, odiamos nos amar. De nossos imensos canhões de ferro, só flores atiramos.

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