sexta-feira, 18 de outubro de 2013

Devora-te a ti mesmo

Caros, sejam bem-vindos. Essa noite, eu serei seu Maître. 
Por favor, deixem-me pegar vossos casacos, restos de alguma coisa morta, verdadeiro primor. Sentem-se e apreciem o banquete, livres de quaisquer preocupações com o bom senso, com a vergonha, com a consideração ao próximo. Aqui, não lidamos com isso, somos famosos por nossa excelente capacidade de ignorar o que há de valoroso. Nossos ingredientes estão, unicamente, baseados em toda horda inútil de partes alheias sem a menor utilidade, que não seja saciá-los. Sintam-se a vontade.
Gostariam de provar um de nossos deliciosos vinhos? Cálices de sangue fresco, retirado ainda agora da jugular pulsante de um andarilho qualquer. Um desses reles seres que rastejam até nossa majestosa porta, intencionados em mudar-nos o cardápio. Mas não nos tomem por impiedosos, não. Demos-lhe, afinal, o devido e digno abate, livrando-o dessa existência emocional pagã e sem graça.
Como entrada, temos iguaria inigualável: língua. Calamos todo aquele que teima em imprimir-nos qualquer tipo de piedade. Limitamos sua capacidade de falar impropérios sentimentalistas, tais como compaixão e discernimento. Esse tipo de língua só cabe bem na boca de quem as come, jamais de quem as utiliza. Perda de tempo.
Como prato principal, gostaríamos de apresentar-lhe a nossa especialidade: miolos. Convenhamos, amantíssimos convidados, para que precisam dele? Pois se jamais fazem uso da razão! Criaturinhas medíocres que só fazem uso do... Valha-me! Quase estraguei o nosso grand finale!
E eis que a menina de nossos olhos ficou para o final, ilustres amigos. Convidamos, excelentíssimos, para apreciar o que há de mais doce ao paladar. Aqui, nessa badeja de ouro, coloco às vossas graças o motivo de nossa inalcançável fama: um delicioso e totalmente puro e íntegro coração. Músculo imperfeito e intrigante. Permitimo-nos a audácia de servi-lo inteiro, sem nem ao menos tocá-lo, salvo para dispô-lo na bandeja. Embora seu aspecto não seja dos melhores, asseguro-lhes que o sabor... não há comparações. Os temperos que não utilizamos naturalmente, tais como gratidão, compreensão, decência, a raríssima consideração e o quase extinto amor, todos eles estão aí presentes. E aqui, é só para isso que servem. Para serem devorados por vossas senhorias, seres de alta extirpe e nenhuma gota de valores e princípios, cujo próprio coração vive imerso em máscara puritana e encharcada de mentira, hipocrisia e ilusão.
Servir bem para servir sempre, essa é a nossa máxima.
Desfrutem de seu banquete! Bom apetite, agradecemos a preferência.
Nossa intenção é agradar.

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