“- Mãe... existem mesmo contos de fadas?
Existem, filha. Mas para que eles sejam reais, você precisa ser um príncipe ou uma princesa.
Existem, filha. Mas para que eles sejam reais, você precisa ser um príncipe ou uma princesa.
Precisa nascer em um castelo de sonhos... ser uma menina
doce, pura e bela... conservar valores de bondade suprema... jamais cultivar em
teu coração sentimentos negativos, jamais revidar aos que te fizerem sofrer,
devolver amor à ódio, sorrisos à lagrimas e flores à pedras.
- E se a gente não nasce príncipe e princesa, mãe? Podemos nos tornar um?
- E se a gente não nasce príncipe e princesa, mãe? Podemos nos tornar um?
Não, filha. Quem não o nasce, torna-se um lutador.
Aos guerreiros, não é dada chance dos contos. Guerreiros são forjados em suor, sangue, lágrimas e lama. Não são belos e nem dóceis. Sua pele é espessa e suas mãos, cheias de calos, grossas. Carregam em si as marcas de muitas lutas, cicatrizes profundas de cada amanhecer.
Aos guerreiros, não é dada chance dos contos. Guerreiros são forjados em suor, sangue, lágrimas e lama. Não são belos e nem dóceis. Sua pele é espessa e suas mãos, cheias de calos, grossas. Carregam em si as marcas de muitas lutas, cicatrizes profundas de cada amanhecer.
Aos guerreiros, não sobram amores. Para eles, existem os
inimigos, os aliados, os parceiros de batalha. Vivem em campos vastos, imensos
e vazios. A solidão lhes faz companhia. Desde cedo, precisam aprender a se
bastar. Se assim não for, morrem. Morrem por entregarem-se, por desistirem... morrem
de dor. A dor de jamais poder pertencer a ninguém.
Seus rostos demonstram uma dureza que, muitas vezes, não há
em seus corações.
Sim, filha, eles o tem. São corações grandes e vermelhos e
pulsantes... mas eles o escondem. O escondem do mundo, pois sabem que esse é
seu único ponto fraco. Eles o mantém afastado das margens de seus corpos...
abaixo de suas armaduras, de suas vestes, de sua pele, músculos... eles o
guardam dentro da própria alma. Muitas vezes, guardam-no tão internamente, que
esquecem que o tem. Lá dentro, eles preservam seus maiores tesouros. Por isso,
também, precisam mantê-lo a salvo, para que seus adversários não o encontrem e
não vejam o que há dentro dele. Se o encontram, execram-no. Mutilam o guerreiro
pelo prazer do sofrimento.
Guerreiros não podem amar, filha. Porque se o fazem, perdem
sua capacidade de lutar. Não por esquecerem-se de quem são e do que são feitos,
mas porque baixam suas guardas e tornam-se vulneráveis. Toda horda de inimigos,
então, aproveita-se de seu infortúnio para atacá-lo. Quando um guerreiro ama,
ele expõe seu coração. E quando o faz, entrega às mãos do mundo a única arma
capaz de vencê-los.
Mas o mais incrível nessa história, minha filha, é que
quando um guerreiro ama... ele simplesmente cansou-se de ser um guerreiro. Pois
que estes não dariam a chance de serem vencidos. Mas ele, ele sim. Ele quer
tornar-se personagem de conto de fadas. Despe-se de suas armaduras, deixa cair
as suas armas... e implora ao seu Deus que o torne príncipe ou princesa. Quando
ele ama... ele entrega, de suas próprias mãos, o seu coração, o seu grande
trunfo. Ele sabe que perdeu a batalha e que só resta um caminho, pois não há
retorno: ele será, invariavelmente, destruído. E sabe de uma coisa? Eles
esperam que o destruam, pois não querem mais aprender a lutar. Querem apenas o
fim. De tudo. Se ele tira seu coração das profundezas da alma e o entrega... é porque sabe que não o terá de volta.
Por isso, filha, existem contos de fadas. Mas só
para quem é, de fato, príncipe ou princesa".

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