sexta-feira, 9 de agosto de 2013

A sombra, a luz e a loucura

Caminhava pela noite densa a passos largos. Pensamentos espocavam à velocidade da luz e de nada adiantavam suas vãs tentativas em refreá-los. O ar era tão pesado e áspero que cortava sua pele muito clara, marcando-a em fendas rasas. Imersa em sua própria sombra... suas asas, negras como seu coração parado, não serviam mais para voar. Apenas faziam peso nas costas. Mais um peso.

Não podia sofrer. Não porque não quisera, mas porque não fazia parte do que era. Não sabia. Criatura sórdida, cuja alma fora vendida e trocada pela promessa da eternidade. No início, achara a proposta tentadora. Mas ainda não conhecia o verdadeiro significado do que é o “para sempre”. Tempo demais, até para quem faz da magia a sua escolha. E passa a vida – e a morte, do corpo e do espírito - manuseando a si mesmo, como a um personagem, enclausurado em um palco cuja cortina jamais se fecha.

Mas não naquela noite. No céu, tantas estrelas que poderia perder-se no tempo e no espaço se olhasse fixamente. A lua, tão clara e brilhante e majestosa, era bela noiva, vestida de um branco imaculado e intocável, a espera de seu astro no altar do império celeste. A luz tornou-se tão intensa que ela não podia continuar ali. Queimava-lhe a carne como brasa, sentia que, antes que sua voz pudesse testemunhar um protesto, já estaria reduzida a cinzas.

Entretanto, havia algo que a prendia ali. Algo mais forte do que sua frieza, seu repúdio pela fragilidade das vidas que tão facilmente levava, sem pensar. Não sabia precisar o que era... o que a mantinha ali, com os olhos naquela tela, pintada pelas hábeis mãos do Criador de todas as coisas. Seria algo semelhante a sua magia? Às vezes, a sensação lhe parecia familiar... não, não era magia. Era loucura. Outro par de olhos seguia aquele mesmo cenário. E, como um imã invertido, que só atrai o que não presta, tanto quanto a si mesma e não o oposto, encontrava-se ali, daquela maneira, presa por fios invisíveis de puro magnetismo. Olhos opacos, perdidos e loucos, buscando o que também não sabia se queria.

Se pudesse (e soubesse, e talvez quisesse) aconselhar, lhe diria: afasta-te, faça-o enquanto dou-te a chance. Antes que meus tentáculos, feitos de dor e horror, o prendam de forma irreversível e tu te tornes mais uma de minhas vítimas. Indefeso, incapaz, vivo apenas pelo curto espaço de satisfazer minha vontade, meu prazer mórbido.

Mas como implantar algum juízo e discernimento em uma mente que a sanidade desconhece? E para qual de seus tantos “eus” suplicar? De todos os de ti que existam nessa mente de ninguém, não há quem possa ouvir, tampouco compreender. Tu te entregas, de bom grado e com um sorriso demoníaco nos lábios largos, à escuridão de que sou feita.

Desisto de procurar lampejos de humanidade em minha própria consciência. Entro no labirinto da demência que queres impor. Abraço minha obscuridade e nem em teu último nível de auspício poderias me intimidar ou influenciar. A alucinação não me retém. Somente o delírio faz frente ao que uso de mais tenebroso. Não se pode dominar o que não há reflexos.

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