Caminhava pela noite densa a passos largos. Pensamentos
espocavam à velocidade da luz e de nada adiantavam suas vãs tentativas em
refreá-los. O ar era tão pesado e áspero que cortava sua pele muito clara, marcando-a
em fendas rasas. Imersa em sua própria sombra... suas asas, negras como seu
coração parado, não serviam mais para voar. Apenas faziam peso nas costas. Mais
um peso.
Não podia sofrer. Não porque não quisera, mas porque não
fazia parte do que era. Não sabia. Criatura sórdida, cuja alma fora vendida e
trocada pela promessa da eternidade. No início, achara a proposta tentadora. Mas
ainda não conhecia o verdadeiro significado do que é o “para sempre”. Tempo
demais, até para quem faz da magia a sua escolha. E passa a vida – e a morte,
do corpo e do espírito - manuseando a si mesmo, como a um personagem, enclausurado
em um palco cuja cortina jamais se fecha.
Mas não naquela noite. No céu, tantas estrelas que poderia
perder-se no tempo e no espaço se olhasse fixamente. A lua, tão clara e
brilhante e majestosa, era bela noiva, vestida de um branco imaculado e
intocável, a espera de seu astro no altar do império celeste. A luz tornou-se
tão intensa que ela não podia continuar ali. Queimava-lhe a carne como brasa,
sentia que, antes que sua voz pudesse testemunhar um protesto, já estaria
reduzida a cinzas.
Entretanto, havia algo que a prendia ali. Algo mais forte do
que sua frieza, seu repúdio pela fragilidade das vidas que tão facilmente levava,
sem pensar. Não sabia precisar o que era... o que a mantinha ali, com os olhos
naquela tela, pintada pelas hábeis mãos do Criador de todas as coisas. Seria
algo semelhante a sua magia? Às vezes, a sensação lhe parecia familiar... não,
não era magia. Era loucura. Outro par de olhos seguia aquele mesmo cenário. E,
como um imã invertido, que só atrai o que não presta, tanto quanto a si mesma e
não o oposto, encontrava-se ali, daquela maneira, presa por fios invisíveis de
puro magnetismo. Olhos opacos, perdidos e loucos, buscando o que também não
sabia se queria.
Se pudesse (e soubesse, e talvez quisesse) aconselhar, lhe
diria: afasta-te, faça-o enquanto dou-te a chance. Antes que meus tentáculos,
feitos de dor e horror, o prendam de forma irreversível e tu te tornes mais uma
de minhas vítimas. Indefeso, incapaz, vivo apenas pelo curto espaço de
satisfazer minha vontade, meu prazer mórbido.
Mas como implantar algum juízo e discernimento em uma mente que
a sanidade desconhece? E para qual de seus tantos “eus” suplicar? De todos os
de ti que existam nessa mente de ninguém, não há quem possa ouvir, tampouco
compreender. Tu te entregas, de bom grado e com um sorriso demoníaco nos lábios
largos, à escuridão de que sou feita.

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